20/12/2012

Matar ou morrer

O sorteio para as oitavas da Champions é por si só um espetáculo.

Quando então ficou decretado que Real e United se cruzariam numa das partidas, sim, tudo tornou-se mais espetacular ainda. Eles jogarão por um torneio europeu após 9 anos, já que o último confronto ocorreu em 2003, também pela Liga, mas na ocasião o embate era pelas quartas. O tempo é distante, pois a equipe inglesa ainda tinha David Beckham e Ronaldo disputava sua primeira temporada pelos merengues. A classificação dos maiores vencedores da Europa veio após um revés por 4 a 3 em Old Trafford.

E o jogo que está por vir promete tanto quanto qualquer outro gigantesco confronto que já presenciamos antes. Por mais que a equipe de José Mourinho esteja em crise forte – definitivamente a maior que já teve por lá, uma das maiores da sua carreira – e o United lidere a Premier League – é só perguntar a Ferguson se ele gostaria de pegar de cara no mata-mata a equipe eneacampeã continental. Ninguém quer. Mas foi mesmo o próprio Real Madrid que se colocou em tanto perigo, além obviamente do tremendo Borussia Dortmund, que apesar de estar 12 pontos atrás do líder Bayern na Bundesliga, levou o grupo D da Champions League com mão forte, não perdendo jogo algum para a esquadra de Mourinho. E aí os espanhóis se colocaram no pote 2.

Se fossem tempos atrás, aliás, o Madrid decerto seria favorito. E também o seria por jogar a primeira partida em casa, onde na temporada passada padeceu apenas por uma vez, na derrota para o arquirrival catalão nos 3 a 1 de 10 de dezembro – a eliminação da UCL, afinal, veio nos pênaltis e não com revés no tempo normal. O Bernabeu não é uma tão grande arma dessa vez para os blancos. Mas a equipe de Mou tem nomes estratosféricos que assustam a todos, até mesmo aos líderes do nacional inglês. A questão pontual é que, se o Madrid de fato se acertar, ao menos para um jogo, pode derrotar o United pelo menos na primeira metade do confronto. Em Old Trafford, o Manchester virá babando e será favorito.
Ainda que conturbado o ambiente madridista, com Mou e Florentino Pérez se enfrentando internamente, e com o apoio dos jogadores ao técnico perdendo força, tanto pelas declarações que Mou concede à imprensa espanhola como pelo que deve fazer dentro de seu grupo, o Real Madrid tem algumas chances de jogar muito e derrotar o time de Sir Alex. Mas é delicado pensar como jogar tanto numa única partida apenas após uma temporada até agora excepcionalmente decepcionante. Talvez Cristiano Ronaldo possa se inspirar em Trafford. Ou talvez possa selar o destino madridista para o inferno. Pois, após algum tempo, a equipe não apresenta perspectiva para a temporada, e se for eliminada nessa etapa da Liga, deve muito bem rastejar por uma vaga na Champions da temporada seguinte, e só – o Madrid está 13 pontos atrás do Barça, e isso deixa quase impossível o bicampeonato de La Liga.

Passando ao lado vermelho, protagonismo do confronto pode ser para a dupla Wayne Rooney-van Persie, que tem funcionado esplendorosamente. Com o holandês em forma, a preocupação de Mou em marcá-lo será ainda maior do que o normal, além do mais para uma defesa tão insegura como se apresenta a do Real Madrid. Para Cristiano Ronaldo, é o reencontro com a equipe que lhe consagrou, lhe deu as maiores vitórias de sua carreira e o maior sucesso como futebolista com a conquista de 2008 do prêmio de melhor do mundo.

Aliás, certamente para os madridistas o jogo vale mais. Por mais que Mourinho não continue no comando da equipe para a temporada 2013/14, o que vale é a chance de seu terceiro título da Liga, e também a dignidade para uma temporada até agora que representa apenas o perfeito fracasso. Para o Real Madrid, muito mais do que para o United, o jogo vale a vida, o vigor da temporada, ainda que uma eliminação da Champions seja muito doída para qualquer clube – e isso para o Manchester afetaria significativamente a confiança do time. Se qualquer um dos times pode morrer nessa oitava, morrer tem um significado altamente mais comprometedor para os merengues. Afinal, do jeito que as coisas estão pelo lado do reino de Madrid, nem mesmo se sabe se Mou continua até o embate com os Devils, que ocorrerá em fevereiro.

Mas por si só esse jogo é um espetáculo.

Mou – logo após ver o resultado do sorteio

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16/12/2012

Entrou, aplicou e ganhou

Quando Tite mandou a campo Jorge Henrique, substituindo Douglas, o Corinthians prometia estar atento a todos os movimentos do Chelsea. O mais importante para os corintianos, afinal, além de jogar uma partida inspirada, era mesmo deter os avanços dos Blues pelos lados do campo, principalmente pelo lado direito, ou seja, se aplicar taticamente.

E a lateral-direita foi protegida, tal qual a esquerda, tal como o miolo de zaga e a parte dos volantes. O Corinthians foi impecável. Mesmo não tendo sido mais perigoso no primeiro tempo, porque o Chelsea teve a chance com Cahill num lance de escanteio em que Cássio fez um quase milagre, e depois com Moses, em que Cássio fez uma das mais brilhantes defesas de sua carreira – certamente uma mais importantes. Em um jogo-espelho, com dois 4-2-3-1s, Emerson iniciou para atacar o lado destro do Chelsea, em que Ivanovic atuava. Jorge Henrique, enfim, entrava para ser um secretário particular de Alessandro, auxiliando-o no combate a Hazard e marcando Cole.
Paulinho teve de se sacrificar como um jogador de sua magnitude para seu time teria de fazer. Doou-se pelo conjunto, marcando e combatendo Ramires no duelo mais direto e interessante do jogo, dada a qualidade de ambos. Pela mesma posição, o confronto único por uma vaga na seleção, isto tudo era realmente diferente para os dois. Ainda que Ramires seja tecnicamente superior, Paulinho tem se superado e atingiu tal nível notável como jogador da posição, não o dando por acaso uma vaga com Mano na seleção. A surpresa maior foi reparar o quão agressivo e imponente o Corinthians mostrou-se dentro do jogo. Não foi um show, mas foi uma performance excelente. O time de Tite conseguiu se tornar ainda melhor que o mesmo campeão da Libertadores.

O Chelsea, afinal, apesar de não ser fantástico, é um time de respeito, de nome. Possui opções, variações, qualidade. E aos montes. Faltou organização, e bem como o The Sun descreveu, é o fim do mundo, ao menos para Benítez, ter perdido o jogo. A equipe azul de Londres foi pressionada por um Corinthians dono de si e dono do jogo. Danilo fez exaustivamente um trabalho de recuperação, trabalhando sobre Lampard para impedir o Chelsea de começar o jogo com algum conforto desde lá de trás. Guerrero, não só pelo gol chorado, mas pelo jogo em sua plenitude, foi fundamental. Os corintianos conseguiam então fazer jogo, com alguma dificuldade – uma dificuldade natural, há de se falar, dado o adversário -, mas as chances criadas não foram por qualquer coisa. No primeiro tempo, Emerson teve duas em seus pés. Na primeira, ao invés de passar a Guerrero, tentou passar por David Luiz, que protegeu com o corpo de forma simples; a segunda foi com um erro pífio de Gary Cahill, aos 28 minutos da primeira etapa, em que o corintiano chutou a bola longe da meta de Cech.

Hazard, então, foi travado pela direita. Alessandro foi destemido, pela direita, também – mesmo sem apoiar efetivamente. Ralf foi pego por Lampard em um lance. Ralf marcou Lampard. Lampard não conseguiu jogar, e o Chelsea aproximava-se de Cássio por talento, não por estratégia ou plano de jogo. Era a qualidade que tantos diziam que eles tinham.

O panorama do jogo mudou quando, no segundo tempo, o Corinthians passou a pressionar por volume, que o Chelsea, pelo caminho que tomava, teria com que lidar. A posse era corintiana, mas a força de ataque literalmente pertenceu aos alvinegros. Paulinho, por mais que mais tímido que na Libertadores, infiltrou-se para dar o passe a Danilo que finalizou para Cahill tirar e, na sobra, Guerrero confirmar o tento. Com o pressing voraz a que impôs o Chelsea, o Corinthians sabia que o gol estava mais perto. Esse sempre foi um dos maiores trunfos do time de Tite. Ter segurança que a chave do jogo está nas próprias mãos. Mesmo que Paulinho, a arma da Liberta, não estivesse a fim de marcar o gol redentor dos corintianos, pois ajustava-se ao desafio de acompanhar Ramires, a chave estava na cabeçada de Guerrero, que entrou para a história fazendo história.

15/12/2012

A mudança de Tite

O jogo de domingo possui um favorito óbvio, mas exponencialmente menos óbvio que o do ano anterior, e somente alguma coisa menos óbvio que o Liverpool de 7 anos atrás, do confronto contra o São Paulo, acontecido também em Yokohama. O Chelsea, por mais que entre como o cachorrão do jogo, merece incerteza e descrença maiores do que esses dois outros times que foram citados aqui, o outro sendo o melhor do mundo, o Barcelona.

E não é que isso é verdade?

O Chelsea chega diferente se comparado ao meio do ano. Aquele passou por um processo de reformulação, com Di Matteo dando um princípio, e agora Benítez continuando. O lema é a renovação. E por esta, há um preço que tem de ser pago, irremediavelmente. O Chelsea, pois, é mais leve, atraente e ofensivo que o time histórico campeão da Champions League. Mas é potencialmente desconfiável, e joga de uma forma que oferece mais riscos dentro de uma partida. De fato, com Di Matteo, no começo do ano, os Blues ganharam jogos de maneiras fantásticas, porém postando-se sempre de forma conservadora, sem arriscar muito. Para o momento, era do que o Chelsea precisava. Deu certo.

Abramovich viu-se então numa situação curiosa, e teve de manter seu treinador para a temporada 2012/13. Ele foi demitido. Afinal, para quem teve Mourinho, Hiddink, Felipão e Ancelotti, Di Matteo era pouco. Era pouco nome, pouca grife. Ele permaneceu no cargo pois “apenas” obteve o sucesso pleno através da conquista ímpar, jamais vista em Londres, da Champions League – a conquista tão desejada e esperada pelo magnata russo que preside os Blues. Com um campeão dessa categoria no cargo, um técnico ainda promissor, campeão da Liga, há de se complementar, Roman o manteve, mas viu tudo ruir com a péssima campanha na Liga dos Campeões, onde os azuis da capital inglesa conseguiram atingir somente o terceiro lugar em seu grupo, deixando de ficar com uma das vagas nas oitavas-de-final do maior torneio europeu. Benítez aí já estava no comando, já que até o entrave contra os juventinos, em Turim, Di Matteo ainda era o comandante.

Por ora, como não poderia deixar de ser, a temporada para a parte azul de Londres é o puro fracasso. Para Benítez, um Mundial não seria ótimo, mas apenas bom. O time de Abramovich, de fato, mensura vôos mais altos, imponentes, mais importantes, que condizem com a realidade afeita à grandeza que o Chelsea conseguiu adquirir através dos anos de seu crescimento, tanto no âmbito nacional quanto no internacional – nos últimos 5 anos, desde a temporada 2007/08, o Chelsea conseguiu figurar entre os quatro melhores europeus, isto é, entre os semifinalistas da Champions League por três ocasiões. Atingiu uma quarta-de-final em 2011, tendo padecido ao rival United, com dois reveses. No ano seguinte, porém, a glória veio e história foi feita.

Mas, apesar de desconfiar da equipe de Rafa poder ser aceito, irrefutável é a sua posição entre as grandes do mundo. Em qualidade, comparada ao Corinthians, a equipe é quase que infinitamente superior. E essa diferença tende mesmo ao infinito. Os paulistas não possuem tantas opções variadas para posições tão pontuais. O Chelsea tem nomes que chamam a atenção a quilômetros de distância. O que o Corinthians tem é força, força no conjunto. Agregados, seus jogadores conjuram uma grande força, consistência e aplicação tática. São melhores defensivamente que ofensivamente, pois mesmo pressionando a saída dos adversários, o time do 4-2-3-1 de Tite se mostra mais completo quando submetido à pressão defensiva. A defesa é segura, bem postada, sabe como lidar com os adversários. De fato, porém, a apresentação mais pífia que vi do Corinthians no âmbito defensivo foi o revés escandaloso diante do São Paulo, que estava jogando com time reserva, aliás. Wallace, talvez por esse jogo, esteja fora de qualquer plano de Tite de modificar a disposição defensiva, senão Tite mesmo pensasse em manter a defesa do modo que sempre foi.

Para o Corinthians, vai pesar muito o seu lado direito, com Alessandro. O lateral atesta um ponto mais frágil da defesa, pois não concede tanto apoio qualificado, e não é tão seguro assim na marcação. Na outra asa de jogo, Fábio Santos administra com alguma segurança sua posição de titular. No caso de Alessandro, jogar contra Hazard pela lateral é mesmo um azar. Assim como Ashley Cole ainda continua um lateral-esquerdo muito respeitável para o cenário mundial, apesar de não ser o melhor que há, e apesar também de ter passado de seu auge como jogador. Ainda assim, aquele lado promete render problemas aos corintianos. Para isso, o winger-direito deve acompanhar o lateral adversário. E para tanto, Tite deve modificar a linha dos três médios ofensivos. Seja colocando Romarinho ou Jorge Henrique, o Corinthians precisa da mobilidade para se lidar com um time tão flexível, pelo menos teoricamente, quanto o Chelsea.

Por: Felipe Saturnino

14/12/2012

A confusão, o ídolo e o título

Tricolores, os paulistas, ansiavam pela volta da glória. Há mais de quatro anos, ela não regressava. A chance, que no ano poderia ter sido concretizada, ter se tornado realidade em três ocasiões – no Paulistão, na Copa do Brasil e no Brasileirão -, calhou de ter se efetivado numa última tentativa para um São Paulo faminto, dono de alguma garra, disposição e juventude, e com Ceni voltando à meta para celebrar mais um triunfo para o curriculum vitae já muito célebre, brilhante por suas fantásticas vitórias como arqueiro artilheiro, o maior de todos, há de se falar. A Copa Sulamericana apresentou-se como vencível, e vencida (aparentemente) foi.

O São Paulo merece o título pois, oras, ganhou a final. Sim, ganhou. Nem que tenha sido a metade da mesma, mas o fez com serenidade, não em plenitude, porque iniciou o jogo um pouco afoito; perdeu o medo com o gol de Lucas, que acelerava a partida com suas arrancadas ferozes, características de um “hambriento” meia que esperava por seu próprio tento, para tornar perfeita para si próprio a já incrível noite. Era, afinal, sua última como são-paulino. E tratou, depois do gol, de prosseguir com seu jogo tomado à minúcia, ao detalhe, pois estava mesmo com vontade de jogar, e jogar pra fazer história – que ainda lhe faltava propriamente, mas agora não mais; algum tempo, não muito, após o gol, o 7 das três cores do Cícero Pompeu serviu Osvaldo que, por mais que estivesse alguns milímetros impedido, nem que tenha sido por seu calcanhar, marcou e anotou o dois a zero. Mas o jogo era tenso.

O Tigre, pois, não era admiravelmente fabuloso; nem era, afinal, fabuloso. Não jogava bonito. Jogava forte, joga forte. Derrotou o Millonarios com gol de cabeça, em momentos finais do jogo. Os colombianos puderam empatar. Ontem, os argentinos partiram para um jogo muito forte, agressivo. De fato, o São Paulo deu bola. A tensão de final não atesta óbito, mas dá motivo pra pensar em agressão; e o jogo era tão nervoso por causa da natural pressão existente em ambos os lados, que foi lapidada pelos times que, no final, acabaram por trocar sopapos para a saída do primeiro tempo, o “entretiempo”, como diriam os albicelestes. Futebolisticamente, é deveras congruente com a verdade que o Tigre não seria capaz de vencer o São Paulo com um jogo solto, sem faltas, sem paradas; seria muito simples, posto a velocidade notável, e que vai fazer falta, de Lucas, mas também pelas ousadas investidas de Osvaldo, um ponta no 4-2-3-1 de Ney Franco que adquiriu confiança ao longo do ano, ganhou a posição e começou a partir pras bolas. No sweat, no glory. O Tigre, sem dúvida, como é de natureza, deveria empurrar o São Paulo à timidez. Limitá-lo a poucos lances livres, bloquear tantos espaços quanto pudessem, e também quando pudessem. Quando Lucas tinha a bola, no final das contas, quase nunca alguém conseguia pará-lo. Realmente, poucos podem fazê-lo.

Surgiu então a milonga. Depois, no final do caso, talvez não seja milonga, pois os argentinos falam em agressão por parte dos seguranças tricolores. Para o São Paulo, este seria o literal desastre. Por mais que os argentinos tenham brigado em campo – e como brigaram, a ponto de Lucas ter sangrado deliberadamente após ter tomado uma cotovelada -, esse não seria o caso. Se, no fim, tudo é uma ilusão, e não pode-se arcar com o inferno em que se meteram, os argentinos do Tigre, de Nestor Gorosito, não estão apoiados, pois não estão certos. A confusão poderia ter se generalizado, ou melhor, factualmente generalizou-se quando os times desceram para os vestiários, num túnel que une ambos vestiários de mandante e visitante.
A tensão a que me referi no parágrafo segundo, porém, se iniciou com o apedrejamento do ônibus dos jogadores do Tigre pela torcida do São Paulo – um absurdo, por mais que usual pelo continente. Algo que não poderia acontecer, pois sim, aí a segurança ameaça pela sua falta, pois ela não existiu no caso; a pilha continuou com o trato do aquecimento. O São Paulo não teria permitido, e o Tigre foi, por isso, impedido. Destratá-los para não ser feito o aquecimento em campo alegando que o gramado pode ser mais danificado, após um show de Madonna, bem, isso sim é curioso. Enfim, fato é que, pilhados por isso, e talvez sabendo que o São Paulo não disponibilizou o gramado para o aquecimento – pois os argentinos subiram a campo para ficarem aquecidos -, o Tigre conseguiu driblar a segurança, e se aqueceu.

No jogo, tudo poderia ter sido amenizado pelo juiz chileno, Enrique Osses, que talvez tenha sido muito, muito mão fina, suave para o tratamento que o jogo requisitava. Lucas, como já dito, levou uma bela cotovelada para seu álbum de deslealdade dos adversários. Lucas que, bem, é ídolo.

O título é do São Paulo. Bem, o vice da Conmebol voltou atrás e ainda não o deu por certo, mas seu merecimento pertence ao São Paulo. Jogou mais jogo, tem mais time, é mais leal. Mas a história da confusão, que se envolve e se confunde com a história do título, e ainda mais importante, com a história do ídolo jovem, Lucas, que obteve a honra sagrada concedida pelo ídolo mor da torcida, Rogério Ceni, requer investigação mais certeira. Apenas com testemunhos, pouco pode se avançar em esclarecimento. Um fato é que não há certeza no que se tem, e para um time, por mais que milongueiro e argentino, não volte a campo para continuar a pancadaria pra cima dos paulistas, bem, talvez tenha havido algo mais forte no intervalo. A questão que resta é a respeito de quem ter iniciado o confronto. E os seguranças tricolores, por mais que sejam “desarmados” – pelo que disse João Paulo de Jesus Lopes, de fato são -, hão de ser investigados, posto o que os argentinos afirmaram. A razão reside em algum lugar, imperceptível e ininterruptamente transitório, pelo que foi dito por ambas as partes, pois, como não poderia deixar de ser, não existe consenso.

De certidão, nada certo há. Apenas que Lucas é ídolo. Pois, bem verdade é, a Conmebol é tão inexata, errada e confusa que dá o troféu ao campeão num dia, e tem um de seus homens fortes dizendo que o torneio não acabou. Isso sim, afinal, é confusão.

Por: Felipe Saturnino

26/11/2012

Por que (não) arriscar?

Ainda Mano como técnico, os rumores sobre sua saída borbulhavam. A descrença no seu trabalho era evidente, e vívida. A torcida pressionava pela reprovação. Parece que isso foi ontem.

Pois foi anteontem. Quando na sexta, se disse da sua saída, sua saída oficial, contornou-se a situação do tampão. Mano não era um. De fato, uma ala na CBF não possui simpatia por sua figura. O staff de Sanchez perdeu, como o mesmo disse, e este foi “voto vencido”. Enfim, Mano sucumbia à pressão, mas no seu momento indevido.

Talvez o ex-Corinthians não fosse mesmo um técnico com a qualidade para habitar um cargo tão alto assim no âmbito do futebol nacional, e também, internacionalmente, já que a importância do nosso futebol extrapola seus limites territoriais. Sua influência no esporte é demasiadamente grande, e assim a de Mano teria de ser. De fato, enfim Mano agora achava algum traço significativo para a sua seleção. Sem mudança tática de grande importância, pois ele apostava na moda e acreditava que a questão fundamental não era seu sistema tático, mas sim fatores mais humanos, menos estratégicos.

Quando se fala de sua substituição, surgem nomes diversos, e também despontam específicos. Muricy talvez fosse pelo agregado do merecimento recente que obteve, mas hoje o impacto de suas conquistas ecoa bem menos que em 2010, e nem é mais tão unanimidade hoje quanto era na época referida. Felipão é campeão mundial, apesar de seus deméritos recentes como treinador e uma conquista importante mas não tão significativa com o Palmeiras – de fato, seu time era limitado. Tite tem de manter seu melhor trabalho, continuando no Corinthians. Seu perfil não é tão abrangente quanto os de Muriçoca e Scolari. E Luxemburgo? É uma possibilidade. Porém, sua vice-liderança e a vaga direta na Liberta podem muito bem lhe influenciar numa escolha da CBF para o mês de janeiro, e é certo que seus melhores tempos já se foram há muito. É um coadjuvante nessa competição.

Esqueçam-se de outros nomes. Só não do mais esperado.

Josep Guardiola poderia desfilar sua elegância com ternos exuberantes e gravatas bem marcadas com a seleção de maior glamour do futebol mundial? Decerto. Mas, ele exige tempo, menos risco e mais certeza. A um ano e meio da Copa, o que não obtivermos de certeza significará fracasso, e no caso atual, é o que ocorreria lá. Por isso, um técnico tão menos interessante deveria aparecer no cenário para amenizar a crise, reformular o plano e replanejar a equipe como um todo. Não que com esses seja mais certo. Mas, com Pep, o mais justo seria cercá-lo com tempo e confiança, menos interesse político para não acarretar uma demissão “desumana”. Mano pode dizê-lo muito bem.

E se ele assumisse amanhã?

Dificilmente algum técnico recusaria uma proposta da amarela. Mesmo assim, por valer de tanto a experiência, e a possível experiência de um técnico estrangeiro treinando a seleção pela primeira vez na história, há de haver tempo. E pressionar sobrecarregando-o para o Mundial de 14 é muita confiança na interessantíssima experiência. O Brasil necessita de algo mais instantâneo, e não de um experimento de longo prazo.

Ainda que ele assumisse amanhã, como deveria fazer se tivesse proposta.

O elegante Pep


Por: Felipe Saturnino

25/11/2012

DesuMano

Mano fez como o Palmeiras, e caiu.

Caiu, também por causa de si, e mais porque o derrubaram. E o prédio tardou a ser implodido. A um ano e meio do Mundial de 14, Mano não deixou legado. Talvez nem mesmo seu 4-2-3-1 seja legado, nem a opção sem centroavante também. O que Mano fez foi tampar o buraco provisoriamente para dar um caminho à safra que enjoa de juventude, que a possui em demasia, e também tem talento. Até mesmo muito talento.

De modo algum, então, a safra é fraca. Mano era, entretanto, não tão condizente com a pressão que sofreria por administrar essa safra, e também, para fazer o elo com o passado para traçar o futuro – Mano demorou alguns momentos para trazer algum referencial antigo para o time atual, apesar de, certamente, ele ter pensado em fazê-lo mais cedo, mas não o realizava por causa da qualidade e da situação dessas “referências”. O time necessitava de referências, e com as convocações de Ronaldinho, e com as constantes últimas pedidas por Kaká, esse aspecto foi amenizado.

Quando iniciou seu trabalho em agosto de 2010, aliás, os Estados Unidos foram derrotados por uma seleção que cheirava a ótima coisa. E que almejava excelentes hábitos posteriores – isso se resumindo às conquistas. Essa presunção talvez fosse válida. Mas era apenas um preview do que não tardaria a vir.

Em 2011, a Copa América foi um desastre. Foi “um desastre”. Não foi “o desastre”. Esse artigo definido requer especificidade, importância integral. Com um ano de trabalho, Menezes não obteve êxito na Argentina. Era compreensível. Utilizava o 4-2-3-1, a moda, o fashion, o glamour da contemporaneidade. A incompetência dos penais só serve de ilustração para o desastre. “Só”. O time não fez bons jogos, empatou três e venceu um. Não perdeu, se é consolo. Bem que poderia tê-lo diante dos paraguaios, no jogo da primeira fase – pois na quarta-de-final, o Brasil teve as chances, só não as aproveitou. Não ocorreu. Fred empatou nos instantes finais. A competição teve como vencedor o Uruguai, então melhor equipe do continente. A Argentina hoje é bem mais confiável e entusiasma com Messi, Di María, Agüero e Pipita Higuaín.

A albiceleste, aliás, protagonizou com a amarilla um jogo sem energia qualquer na quarta, no templo xeneize dos Juniors. A vitória dos manos de Mano nos penais veio como qualquer coisa, mais que “uma coisa diferente”. Os argentinos de Sabella levaram no tempo normal (2 a 1), porém Neymar conseguiu sacramentar o bicampeonato do Superclássico das Américas. Para Mano, nem importava.

O calendário da seleção não o auxiliou nesse tempo todo, é bem verdade. Esse Superclássico, por exemplo, é inequivocamente um equívoco. É um jogo sem importância, que degenera a imagem tão bela, fantasiosa, brilhante e fascinante que um jogo entre brasileiros e argentinos possui. Mas, fazendo assunto do calendário, que não é o maior vilão, mas prejudicou Mano, o que restou-lhe foi enfrentar equipes certamente mais fortes que fizeram-lhe apenas mal. A França e a Alemanha lhe deram derrotas, e mais descrença. No jogo diante dos hermanos, em New Jersey, talvez seja mais relativizada a derrota. E nem mesmo problema foi o baile diante dos comandados de Löw, que no placar de fato não foi baile – 3 a 2 em jogo tremendo dos germânicos.

A derrota diante da Alemanha é, assim, também justificável. Tal qual a sofrida contra os franceses. E também aquela contra a Argentina. Aquela mais longínqua, no Catar, decerto ficou no caminho maldito feito por Mano. Douglas perdeu a bola e Messi, como deve ser, fez um gol que deu o trunfo aos então argentinos de Batista. Hoje é Sabella quem dá as cartas por ali.

Nos Jogos Olímpicos, o que Mano esperava era pelo ouro. Favoritismo após a eliminação dos espanhóis e uruguaios. Os mexicanos provaram ser melhores, com Peralta anotando os tentos rendedores da conquista maior da equipe que sempre dá calafrios a qualquer categoria do futebol brasileiro. Mano poderia – deveria, este é o verbo melhor aqui – ter caído ali. Não aconteceu. A opção provisória era para finalizar o ano.

No overall, Mano não fez tão mal. E nem bem fez também. Mas, a situação da equipe brasileira deve se atenuar com o tempo, se fixando em outros valores após a expulsão do arrumador de casas. A pior parte, ainda assim, pode não ter passado. Mano, pois, deixou um esquema e um time que devem ser modificados. Ainda assim, a relocação de mobília na casa deve ser sucinta, minuciosamente detalhada.

De fato, para um Mundial de futebol, Mano não era o mestre em avalizar a pressão. Desumanidade mesmo foi fazê-lo de tolo esperando ficar como técnico da esquadra principal integralmente até o final do ano. Foi injusto. Um recesso, novamente, um recesso. Apelar às soluções talvez previamente aceitas, como Scolari, é algo necessário.

Pois requisitar Guardiola exige mais tempo, menos risco e com certeza menos pressão. Por mais que seja Pep, ainda o grande Pep dos culés. E, também, demanda menos desumanidade. Com Mano, foi tudo que se teve. Montar um time notavelmente promissor, jovem, e creditar a Mano a absorção de tanta pressão, bem, talvez não fosse tão indicado. Até por isso, Menezes era uma segunda opção na corrida pelo cargo de treinador, tal liderada então por Muricy – hoje ele é muito menos unanimidade que então.
Mano, pois, sofreu uma desumanidade com a ilusão de sua manutenção do cargo e do time próprio. Politicamente, sua vida era inviável. A pressão era muito grande. E o trabalho já não era tão ruim. Agora, o tempo é ainda menor, e a seleção vai mudar. Com quem, se Mano, um qualificado – talvez não ao ponto do nível da seleção – treinador, foi demitido abruptamente e assim, tão assim?

Talvez requisitem Dunga. Ou tomem não de Muriçoca. Ou tomem sim de Tite, e recusem-no pelo perfil. Mas, e se Andrés gosta dele? No jogo da seleção, políticas desumanas, que previamente não seriam desumanas e sim certas, ocorrem. E se deixam transparecer.

Por: Felipe Saturnino

15/11/2012

Caindo

O revés diante do Fluminense, o muito justo campeão, simplesmente apresentou o irreversível curso do Palmeiras para o abismo. Na verdade, é um abismo necessário para somente alguns times, mas a equipe de Kleina merece-o como lição digna da tragédia anunciada.

O prenúncio – e isso soará como um pleonasmo, talvez – não foi tardio. Argumentava-se no início do campeonato brasileiro as realidades do Palmeiras no desenrolar do mesmo, e o que parecia de mais plausível e condizente com a realidade era uma posição apenas intermediária. Mas, deveras é notável que o aviso servira para pôr em contexto o Palmeiras. O time alviverde se tornou um mero coadjuvante para o cenário paulista, mesmo sendo um dos quatro grandes do estado, mas nacionalmente, seu nível decresceu de forma ainda mais significativa. Afinal, como pode um time ser protagonista somente quando está prestes a cair, no evidente precipício?

Obviamente, o Palmeiras continuará sendo um grande apesar da queda, tal como o são Corinthians, Vasco, e ainda o Grêmio. Todos esses deixaram a série principal do campeonato brasileiro e protagonizaram na divisão genérica. Mas o Palmeiras nem ao menos voltou à evidência de protagonizar algo, e já deixa seu espaço no topo do cenário nacional, tendo sido o vencedor da Copa do Brasil e sendo ainda um componente da Copa Libertadores – indescritível ironia! O que ocorre é no mínimo curioso, e certamente triste, revoltante e contrastante se comparado ao primeiro semestre da equipe, quando se reobteve aquele sabor de conquista. Pois, de qualquer forma, depois de treze anos amargando um recesso em títulos acima do nível estadual – os palmeirenses celebraram o campeonato paulista de 2008 -, eles venceram a Copa do Brasil diante dos coritibanos. E isso tinha de significar alguma mudança.

De mais, o que restará aos palmeirenses, além de torcer até o fim, bravamente, como deve ser, será agonizar no meio do passeio público. A obviedade da queda é percebida por todos, da ala palmeirense mais cautelosa até à mais conservadora e fanática. Mais uma pena é a aproximação do rebaixamento ser dada após um jogo tão bem disputado pelos verdes, e tão bem ganho pelos tricolores. Depois de algum tempo, o Palmeiras voltou a reagir; mas, que se seja sincero, isso não adiciona nada de considerável aos mesmos se saíram em situação defictária. Afinal de contas, de que adianta a derrota quando se está na zona mais temida de uma tabela de campeonato?

No decorrer da competição, o Palmeiras esboçou poucas reações. Um jogo recente, digno de uma olhadela, foi o confronto que se sucedeu diante do Cruzeiro, aquele com os gols de Barcos e uma boa vitória em Araraquara. Ali ocorrera uma digna volta, retornara um pingo de miséria da esperança existente. Contra o Bahia, a vitória mais importante. Mas a sequência dos três jogos sem vitória simplesmente decapitou todas as mínimas chances para o Palmeiras sobre o run away da segundona. O time padece. Quase morreu. Está quase em óbito. Mas isso é necessário e amplamente justo.

Contrariamente aos torcedores, não é minimamente viável e coerente para com a temporada uma ressalva em relação à qualidade da equipe relevando-se o nível da Copa do Brasil. Para o campeonato brasileiro, não há um parâmetro tão eficaz que nos permita prognósticos, senão a Libertadores. Apenas ela nos pode fornecer as melhores apostas para o torneio. A Copa do Brasil não pode ser tão relevada assim, e por isso qualquer relativização há de ser desprezada. É de ser reparar, portanto, o fato de os dois finalistas da competição situarem-se em posições tão baixas na tabela do torneio nacional.

A saída da qual o Palmeiras precisa requer outro artigo, um que seja mais específico, e também mais duradouro. O que há de ser aproveitado aqui é a poética da tragédia ampla dos alviverdes imponentes, que nem assim certamente são. O que poderia ser aproveitado a outros autores talvez fosse uma épica reviravolta e a permanência da equipe na série A. Mas isso não pode ocorrer. Pela justiça do que é certo, e isso sim pode ser um pleonasmo filosófico – se nossa justiça é o correto -, pelo merecimento da queda, pelo que faz bem ao clube, sim, a queda deve ocorrer. Ao palmeirense, que chore hoje. Amanhã, bem amanhã, que volte ao protagonismo com um clube que tem história e tamanho, mas que tem perdido sua grandeza de forma lenta e progressiva.

Para o bem do Palmeiras – e isso pode ser paradoxo ou antítese -, há o mal da segunda. Acreditem, ser rebaixado faz bem quando se perde ou foge a dimensão da própria grandeza que está próxima de se tornar diminuta e notavelmente insignificante.

A melhor representação do Palmeiras no momento

Por: Felipe Saturnino

02/11/2012

O que mais um Ballon D’Or significaria para Messi?

Lionel Messi está à evidência do seu quarto título de melhor futebolista do planeta. O azulgrana detentor da camisa 10, absoluto e absurdo no trono de rei do maior esporte que há, parece querer perpetuar seu monarcado para tornar-se definitivamente uma divindade, mais do que “somente” um gênio que é.
E sobre isso, creio eu, não existem muitas dúvidas. Messi continua a ser o melhor, Ronaldo o segundo – e nisso há uma mera grande vantagem. Iniesta ou Xavi podem ser terceiros – para a FIFA, pode até pintar Pirlo ou Falcao como um terceiro, mas esta seria uma autêntica agradável surpresa por parte da mesma.

Entretanto, é de se reparar que o Barcelona não vivenciou seu melhor momento em três anos com Josep Guardiola, nem ao menos de longe. Na temporada passada, a equipe padeceu diante do Real na Catalunha na liga espanhola, apesar de ter vencido na ida em Bernabeu. O time que era de Pep na ocasião derrotou o Madrid por 3 a 1, desintegrando parcialmente o Real de Mou – que voltou a demonstrar vida quando goleou o Sevilla em Sevilha, logo no entrave seguinte de La Liga. Foi eliminado pelo Chelsea em uma drmática semifinal, em que Messi cometeu o seu único erro no ano: o penal desperdiçado diante do enorme tcheco Cech. Ainda assim, conseguiram vencer a Copa do Rei sobre um Bilbao forte com Bielsa. E foram estas ocasiões de baixa que mostraram o quão grande foi (é) Messi, marcador de 82 gols na temporada 11/12; o Lio que, enfim, jogou num de seus melhores patamares pela seleção albiceleste. O Messi que comanda o time de Sabella, numa espécie de 4-2-3-1 que o deixa livre para ditar ritmo, variar e inverter e ligar os wingers que aceleram o jogo (Di María e Aguero) verticalmente. A fórmula mágica que funcionou no seu melhor ano, indubitavelmente, pela Argentina, e que deu a Leo gols fantásticos como os contra o Brasil (nos 4 a 3 de New Jersey, com a magistral pintura do último tento), gols precursores, como os do hat-trick contra a Suíça (3 a 1, o primeiro jogo em que marcou três com a camisa da Argentina), e gols demonstrativos do quanto Messi conseguiu crescer para o cenário nacional, nos jogos contra Uruguai e Chile, os últimos dois confrontos pelas eliminatórias. E tudo isso ocorreu como promessa – o termo mais válido aqui seria, porém, aviso: quando venceu sua terceira Bola de Ouro, Lionel disse que queria ser maior, mais superlativo e dominante no que envolve o contexto tão delicado da seleção argentina. E isso aconteceu em janeiro. Pouco menos de 10 meses depois, Messi venceu obstáculos e se consolidou definitivamente como o maestro da seleção – talvez não tão grande como Dieguito na popularidade, mas, decerto, aproximando-se de El Pibe na técnica de seu mágico e fenomenal estilo de jogo.

Messi merece, e tem de ganhar mais uma Bola de Ouro pelo que faz por suas equipes, pelos gols de cobertura que marca, pelas fintas sucintas, precisas e minuciosamente calculadas com que rege o jogo na Catalunha, e pela figura que é – apesar disso ser posto seguramente e acertadamente em segundo plano para decidir o prêmio de melhor do mundo. Mas o quão isso verdadeiramente importante lhe é?

Messi, o único tricampeão do prêmio em toda a história, já escreveu seu nome para o infinito sempre de todo o âmbito futebolístico. E isso o coloca entre os maiores da história, talvez o maior do século XXI, de tal forma que nos parece incontestável essa tese. Refutá-la é uma tarefa árdua, e dificilmente alguém conseguirá desbancar todo o envoltório que há ao redor de Messi por causa de seus exacerbados méritos no seu período, tanto quanto breve – que são oito anos – em atividade. Mais um título da FIFA para o argentino significa credenciá-lo a um reinado jamais antes visto, ou talvez até já presenciado, mas há muito. O que se iniciará seguidamente, e novamente, é bem verdade, será sua posição com relação a Pelé. E a posição de melhor da história é sempre digna de muita discussão, e obviamente de um invariável cuidado nas opiniões.
Se o mais significativo é colocar Messi em algum lugar na história ao final de sua brilhante carreira, esperaremos. Mas, agora, já Messi parece estar completamente apto a assumir o posto de melhor da história do jogo. O quarto título de melhor do planeta, que lhe é evidente, mais que apenas e meramente esperado, lhe colocará num estágio numérico, ao menos numérico, sobre geniais Ronaldo e Zidane.

E de fato isso significa muito para La Pulga. E significa por ser mais próximo e comparável à sua realidade que Puskas, Pelé, Cruyff e Maradona são. O que se torna corriqueiro é a constante conexão, que totalmente válida é, entre tempos distintos do futebol que não permitem uma análise coerente, e justa. Mas seria injusto dizer que Messi é o melhor de todos?

O mais coerente e menos assustador, pelo menos agora, é dizê-lo como um excepcional argentino e blaugrana, que está entre os 15 maiores jogadores da história do esporte, e que é o maior deste século. Porém, será evidente que, no gran finale da sua carreira, necessário se tornará falar nele como o maior de todos ou não.

E seria justo considerá-lo o melhor de todos apenas ao final de seu tempo como futebolista? Bem, aí o fim do monarca não representaria o fim da sua monarquia, porém, simplesmente um período de pausa, pois, certamente, Messi já estaria eternizado, seria infinito: um Deus e não só gênio mortal. Mas bem melhor seria poder considerá-lo como o melhor no seu período de atividade, pois assim poderia fruir de seu futebol como o melhor da história.

Messi – o melhor de todos os tempos? No fim, (talvez) saberemos

Por: Felipe Saturnino

14/09/2012

Ironia

As novelas de Ganso e Palmeiras, que possuem tom de suspense e drama, respectivamente, chamam muito a atenção pelo que já sabemos que representam. PH (ainda) é tido como um dos melhores meias de seu tempo, apesar de há algum não jogar nem próximo do que é considerado razoável. Ganso tornou-se um ilustre coadjuvante no decorrer de seu tempo como santista, e fica no plano secundário, atualmente. Neymar é o absoluto protagonista.

E o Palmeiras todos sabem do que se trata.

O irônico não é aquilo sobre Paulo Henrique, e nem isso sobre o possível – quem sabe até mesmo provável – rebaixamento palmeirense. É mais a respeito da polêmica que Cristiano Ronaldo conseguiu criar no meio madridista – que apesar da ótima conquista sobre os barcelonistas pela Supercopa da Espanha, não vem bem no campeonato nacional – em que se fez dito estar triste no segundo melhor time do mundo. E não é ironia o craque português, com todos seus atributos – e tributos (vide impostos) -, estar infeliz no Real?

Ronaldo recebe milhões de euros por temporada, faz milhares de gols por ano, e não é o melhor do mundo por um detalhe, somente um detalhe: Messi. O melhor europeu, ao menos para UEFA, porém, é Andrés Iniesta – outro blaugrana. O 7 merengue sofre – por alguma razão inexplicável, indetectável e, assim, inquestionável por sua existência – e com isso aparentemente mordendo o âmago absoluto, internamente, ele expõe, explicita o problema; ou a (muita) vaidade é tanta para tornar qualquer coisa uma grande coisa?

O conterrâneo Zé Mourinho já adorou a ideia de tê-lo triste e jogando bem assim, como quase sempre Cristiano faz. De fato, ele acha que está de excelente tamanho, Ronaldo, triste como se caracteriza, jogar tanto quanto joga. O avante português, que no Real serve como um saudoso ponta-esquerda – que é o que um 4-2-3-1 atribui a posição do setor de Cristiano -, não está de saída de Madri. Não é o que parece pela situação atual – apesar de existirem rumores de um pedido por sua parte.

Ronaldo pode estar muito bem milongando por algo bem menos prezável e aceitável. E certamente Mou sabe do que se trata. E se foi com ele mesmo, ele parece tentar fazer pouco caso do grande caso. Ácido, Mourinho deu de ombros para o que Cristiano sente atualmente. Mais que qualquer um, ele já adere aos problemas de relacionamento com Kaká – como o El País pôde notificar há algum tempo -, e agora mais essa questão com seu maior jogador pode ser tudo, menos uma boa coisa. E, melhor que qualquer um, ele sabe o quanto isso pode prejudicar o andamento do bom mas ainda incompleto trabalho no Real.

Incompleto pela óbvia falta da Liga dos Campeões, tão sonhada por ele, pelo clube e, claro, pelo dono da história toda que motivou a polêmica toda, Cristiano Ronaldo. Pois, quiçá, isso lhe dê a Bola de Ouro da FIFA – numa hipótese completamente válida, apesar de um tanto quanto distante pelo que o argentino Leo joga. Na última temporada, eles chegaram perto após a semifinal do Bernabeu com o Bayern – e CR7 saiu bem da Champions, batendo aquele penal premiado por Neuer.

Ironias deixadas de lado – e em ironias quero deixar fora desse conjunto repleto de subconjuntos, especificamente, a possibilidade de Ronaldo ser melhor do mundo pela segunda vez, desbancando Messi pelo menos mais uma vez -, o que o melhor português do mundo clarifica na situação é mais uma insatisfação, por algo ainda inexplicável, mais ainda incompreensível – como tal consequência -, porém, ainda assim, inquestionável, pelo que sabemos que não é.

Mas, pela figura arrogante, às vezes desprezível, ainda assim, apreciável pelo futebol apresentado em todos seus anos – e também por toda essa personalidade não muito gostável em momentos -, notamos que Cristiano pode estar fazendo muito caso do que não é relativamente um grande caso.

Sim, até Mou o ironizou.

Cristiano Ronaldo não sendo polêmico? Aí está uma ironia. Talvez até mesmo um paradoxo. Ou falta de redundância.

Cristiano – triste?

Por: Felipe Saturnino

08/09/2012

Pipocas?

A sensação que Neymar deve ter sentido em campo hoje, na vitória tupiniquim sobre os sul-africanos, foi certamente uma das mais desagradáveis de sua curta e promissora carreira como futebolista. O que Mano sentiu lhe é mais próximo e comum. Até mesmo mais sensato e compreensível.

À torcida brasileira – paulista (paulistana) -, vaiar o técnico ex-Grêmio e Corinthians é algo mais óbvio. Os problemas todos, sejam de vertentes táticas ou técnicas na seleção, decorrem ou pressupõe-se que decorrem partindo da natureza do treinador. Mano, que mantém a sistemática do 4-2-3-1 desde o seu início na seleção em agosto de 2010, naquele amistoso diante dos EUA, pouco tentou modificar a natureza tática do esquema; uma mudança significativa foi na característica do miolo de meio-de-campo: na Copa América, deixou a versatilidade e agilidade de Leiva e Ramires para, um ano depois, nos Jogos Olímpicos, usar um sistema menos técnico, mais sólido e pragmático nesse mesmo setor, mas agora com os volantes Rômulo e Sandro.

A liga que Mano ainda não deu na seleção, hoje, porém, está posta numa perspectiva menos plena por motivos óbvios, de importância ainda mensurável mas muito grande.

Em uma coletiva morna, sem sal, como é de seu feitio, Menezes abriu a caixa de argumentações duvidosas e, de certo modo, pífias: quando perguntado sobre o porquê da escolha de substituição de Neymar em instantes finais do entrave diante da África do Sul, no Morumbi, ele pautou de forma enfática o aspecto da condição física da joia do futebol brasileiro.

E Neymar deixou o jogo aos 44 do segundo tempo.

O resultado de vitória brasileira – que teve Oscar na meia principal novamente – foi decepcionante pelo que foi e o que não foi, e não somente pelo que não foi. Foi ruim. Espetacularmente ruim. E poderia ter sido bom. Ainda que tenha sido contra uma seleção ultra coadjuvante no cenário continental. Pois foi o que ocorreu.

Hulk, o herói de MM, marcou nos dois últimos jogos com a seleção, ambos em momentos críticos; o primeiro tento, contra o México em Wembley, é algo diferente deste aqui: enquanto aquele dava um ar de redenção a Mano por alguns segundos e “mantinha” viva a esperança do ouro inédito, este aqui representa a salvação do absoluto abismo cósmico em que ele continua a tentar se jogar.

As pipocas amarelas, que não referem-se a todos os jogadores, não são verdadeiras; são frustrações dos torcedores, e provém da mais alta qualidade. Neymar, o pipoqueiro do dia, foi cutucado por um Mano muito controverso nas declarações do pós-jogo, e também pela torcida colorida em verde e amarelo que o vaiou. Como dizia um desses por aí, as vaias são os aplausos de quem não gostou.

Neymar, se não é pipoca – muito longe disso -, é o líder técnico da seleção no road de Mano Menezes. O caminho é mudar. Mudar o sistema, os objetos do sistema, e mudar também o local do jogo. Por isso o escolhido da vez da CBF é o Recife.

E a Mano: credenciar Neymar às vaias é injusto, mas não deve ser tanta pressão comparado ao que ele já sentiu. Neymar não pipoca. O problema é menos simples e mais amplo. É a seleção que MM não consegue dar jeito.

É o sufoco no Morumbi.
É a pressão do país que é sede do Mundial.
É o técnico que cutuca o ídolo teen.
É o time que nos faz pensar em Dunga.

É a pipoca que estoura; a situação é crítica.

Por: Felipe Saturnino