Aulinha

Sabe quando teu irmão mais velho te dá aquele legítimo show no playstation? Ou quando você engole aquela ‘lambreta’ na sinuca, perdendo pro seu padrinho? Ou até mesmo quando você toma aquele baile daquele cara da sua sala que você tenta marcar mas não consegue de jeito nenhum? Pois é, isto chama-se aulinha.

A aulinha, isto mesmo. Aquela coisa que você aprende da pior forma. Até mesmo quando está mais preparado. A aulinha é uma humilhação, é como um deboche. Te marca.

O melhor time do mundo – certamente o melhor da década -, o Barcelona de Messi, Xavi e Iniesta, foi à Madrid, como todos sabemos. O clássico é o de maior repercussão mundial no momento, dado que a rivalidade transcende o futebol propriamente dito. Passa por questões ideológicas. Mas, permanecendo no futebol, apenas nisto, temos os dois melhores do mundo centrados nas duas equipes da Espanha: Leo Messi e Cristiano.

A surpresa de Guardiola poderia ser o 3-4-3, que foi utilizado nas duas partidas contra o Milan pela Champions League. Na primeira, a equipe sofreu com as roubadas de bola executadas pelo time italiano, dado o fato que o Barcelona começou o jogo praticamente perdendo. Além do mais, a equipe milanesa tinha um ‘1’ no meio-campo que auxiliava a sobra dos meias e também a marcação do 10 blaugrana, Messi. O jogo terminou empatado em 2 a 2.

Naquele jogo, porém, o time foi mais 3-4-3 do que 4-3-3. E, observando de forma mais crítica e mais cuidadosa, constata-se que foi mais uma formação com disposição de 3 homens do que 4. No entrave do Bernabeu de hoje, Guardiola mostrou todas as suas armas.

As formações no momento do empate; já é possível ver Dani Alves evoluindo na direita

Princípio

Após muita especulação, Mourinho optou por um 4-2-3-1 ortodoxo, o mesmo que há tempos vinha executando no Real Madrid – porém sem a mesma regularidade nos jogos contra o Barça. Mesut Özil iniciou o embate centralizado, tentando incomodar Busquets, fazendo-o marcar e ser marcado. Enquanto isso, Xavi e Fábregas atuavam no Barça ‘colados’ em Lass Diarra e Xabi Alonso. Ou melhor, Lass e Xabi colados nos blaugranas. Porém, uma outra questão era a marcação de Messi. Mais que tudo, a princípio, o Real Madrid não optava por algo tão ‘privado’ ao argentino. Isto é, a marcação era por zona. Lionel não estava tão funcional no início do jogo, dado que, apesar de flutuar pelo campo, o Madrid conseguia interceptar as ações do Barcelona, a ponto de fazê-los pressionados e sem espaços para evoluírem à Messi. Por esta pressão nasceu o gol primordial do embate: Valdés tocou mal, a bola foi para Di María que tentou inverter para Benzema, algo que não conseguiu; a bola sobrou para Özil, que chutou e, por fim do enredo do lance, o chute final foi de Benzema, após bola espirrada do chute do alemão.
Na mesma medida em que a pressão diminuía, paulatinamente, o Barça tomando conta do jogo ia. Mesmo assim, o Madrid podia usar o contragolpe: Cristiano Ronaldo teve uma chance perigosa para gol, mas chutou longe, num lance em que Benzema antecipou Piqué.

Mudança no Barça

Apesar de uma dúvida expressada, Guardiola sabia que a surpresa poderia confundir o Real. Ainda mais se fosse acompanhada por uma série de modificações táticas complexas.
Messi flutuava no comando do ataque em minutos iniciais, porém, quando a pressão madridista começou a cessar, o argentino estabeleceu-se na primeira etapa num lugar conhecido: o centro do ataque. Daquele lugar, Messi viveu seus melhores momentos na carreira. Com Fábregas e Iniesta, respectivamente como meia e ponta-esquerda, escalados, e ainda Sánchez, isso daria ao argentino ainda mais possibilidades de trocas do que o usual, dadas as tamanhas funcionalidades dos jogadores. Iniesta, como ponta-esquerda, jogava sobre Coentrão; Cesc, com Lass, e Xavi com Alonso.

Barça no 3-4-3, encaixotando o rival


Porém, eram perceptíveis em alguns momentos as mudanças que Fábregas proporcionavam ao Barça; o ex-Arsenal poderia sair do meio-campo e se infiltrar, algo que Xavi e Iniesta fazem de forma menos frequente. Mais importante que isso, porém, foi o avanço de Daniel Alves na lateral-direita para a ala-direita. O 3-4-3 traçava-se.
Aos 26, Messi, ainda não centroavante ‘mentiroso’, pega a bola. E, desfilando sua magistral classe por gramas madridistas, passa por um, dois, três. Paremos: Sánchez infiltra-se, vira o centroavante, porém, desta vista, Sánchez originalmente é um jogador periférico, e não central. O truque catalão começa. Mourinho e o Madrid começam a ser mortos.
O Barcelona inicia o seu domínio, a sua superioridade, mais do que pela técnica, mas também pela tática. Visto que Daniel Alves avançou, o Barça obtinha vantagem numa linha de meio-campo; assim, o Madrid ficava mais suscetível ao time catalão que, novamente, era favorito ao ‘Clásico’. Aliás, é possível perceber o incômodo de Daniel Alves sobre Marcelo, já que o canhoto não se portava bem em campo. Com tamanha pressão sobre suas costas, o show barcelonista se iniciava.

Virada e zona ‘Messi’

O segundo tempo começou com gol de Xavi aos 7. O Barcelona simplesmente não deixou o Madrid jogar nestes iniciais minutos. A vantagem do Barcelona taticamente era muito considerável, e tecnicamente os catalães são inalcançáveis. Por isto, no confronto, o quesito tático é tão preciso assim.
Agora, Lassana Diarra ficava mais preso à Messi, já que este, agora, posicionava-se mais à direita no Bernabeu: o 3-4-3 existia, mas com as crescentes infiltrações de Fàbregas e também com o trabalho de Iniesta que triturava Coentrão em uma atuação pobre do português – apesar do show do Barcelona; sem falar de Dani Alves, que jogava sobre Marcelo e que deu o passe pro fim da ‘AULA’ do Barça, com gol do ótimo Francesc Fábregas. Neste momento, Mourinho já fazia com que Khedira, no lugar de Lass, agredisse um pouco mais à frente o Barça, tentando auxiliar Coentrão no trabalho com Iniesta também; Xabi Alonso, no lado esquerdo do meio-campo central, ocuparia partes da zona ‘Messi’. Neste ponto, a fatura estava liquidada. Quer dizer, tivera Ronaldo feito aquele tento de cabeça – aos 19 – que a história seria distinta; não foi.

O jogo, então, nos dá mais algumas constatações:

Messi atuou em diferentes posições, em diferentes pontos do campo. Hoje, uma marcação ‘privada’ sobre o argentino é desnecessária, ou melhor, é maluquice.

Guardiola mostrou o que sabe sobre táticas: fez seu Barça modificar o 4-3-3 até o 3-4-3 que consolidou a vitória sobre o Madrid, por 3 a 1.

Daniel Alves é o melhor lateral-direito do mundo: versátil seu trabalho como ala, ofensivamente destruidor hoje.

E, ainda: o Real é fantástico, mas o Barça é de outro universo.

Barça - lecionando e mostrando que é de outro lugar

Por: Felipe Saturnino

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