Archive for março, 2012

27/03/2012

“Metamorfose”

O São Paulo conseguiu a liderança na rodada-chave para fugir do Corinthians. Sim, fugir; de fato, a palavra é esta mesma. E o senso é o comum. A equipe dos ares de Cícero Pompeu de Toledo necessita ‘escapar’ dos autores da já ‘extensa’ freguesia – apesar de ter acabado, ela continua.

Mudança no posicionamento praticamente não afeta Lucas

E ela continua por esse bloqueio psicológico que impede os tricolores de se medirem, de igual para igual, com a equipe alvinegra. Oras, a pilha antecede o próprio clássico. Complementa o ardor na raiz dos nervos que se dá naturalmente ao atuar no – talvez – maior clássico de SP. Mas fica óbvio que Corinthians e Palmeiras ainda causam estrago – sem querer fazer conexão com o literal estrago causado pela Mancha e a Gaviões.

O time são-paulino conseguiu escapar no ano passado, também, dessa ameaça. Não conseguiu passar do Santos, porém. Esta situação é mais confortável do que enfrentar os atuais campeões brasileiros. O ‘mental’ são-paulino deve ficar mais livre da pilha. E como o jogo diante do Santos seria no Morumbi – na possível semifinal -, e em confronto único, as chances crescem.

Pois, também, o time de Leão vai se moldando. Apesar de não ter feito progressos ainda tão significativos, o técnico adotou um padrão, e o definiu bem. Agora é adequar os jogadores a esse molde. E Lucas tem feito apresentações mais seguras, na legítima ponta-direita que vem compondo pelo São Paulo. Uma mudança não só tão voltada somente à pura tática, mas à sua postura. Ele modificou-se. Refletiu. Nem que tenha sido um pouquinho, e sua ‘metamorfose’ seja ainda, invariavelmente, tímida, como sua figura fora de campo.

Não. Não remeta à faceta do lendário Gregor Samsa – da novela também lendária do também lendário Franz Kafka. No livro do tcheco natural de Praga, o protagonista transforma-se em um inseto – que brilhantemente, durante a narrativa, Kafka descreve suas características sem conceder uma face final do inseto pensado.

Lucas é o ponta-direita do 4-2-3-1 de Leão. A proposta do são-paulino já foi visada aos três beques, mas sem muita repercussão. Ele trouxe o esquema para ser seguro e sucinto. Apesar de uma fase óbvia e entediante de Paulistão, está funcionando.
É um fato, porém, que o comportamento tático do 7 são-paulino – que cobre o seu flanco marcando o lateral-esquerdo adversário – não se diferenciou tanto com a mudança do comandante desde Adilson Batista. Muito pois, se aqui ele é ponta-direita, lá, com Batista, ele compunha esse flanco de forma mais avançada – a proposta que tornou-se fracasso de Adilson era o 4-3-1-2 -, como um lídimo atacante.

Puramente, a mudança do destaque mor do São Paulo, ainda sem descartar Luís Fabiano mas já o fazendo brevemente, aqui, relaciona-se com sua mudança de postura: menos individualização e mais cooperação. Apesar de sua qualidade indiscutível e notável, Lucas precisa da cabeça para ‘metamorfosear-se’ no craque que o São Paulo tanto precisa após já há mais de 3 anos sem nenhuma conquista. A Copa do Brasil parece um belo lugar para terminar esse jejum.

Se essa mudança continuar em Lucas, assim, talvez, o São Paulo moldará-se no time ideal de Leão de forma mais rápida e pontual. Ainda sem Luís Fabiano, a equipe precisa de um ‘algo mais’ para desbancar outros ‘cachorrões’ – brigando pela Copa do Brasil e pelo Paulistão. O mal da falta de Ceni, todavia, é insubstituível e algo que o jovem não pode ainda dar conta. Nesse caso talvez fosse mesmo preciso uma metamorfose digna das hipérboles de Kafka.

Por: Felipe Saturnino

20/03/2012

Choque de realidade

De uma hora para outra, uma vontade – que não vou adjetivar de inesperada – bateu para escrever no blog. E vontade pode, até mesmo deve, ser substituída ou composta por dever no contexto utilizado, aqui. Mas sim, bateu aquele feeling que indicava mais claramente algo para mim aqui: escrever, como é de hábito.

É meu dever. E minha vontade.

Porém, com tantos assuntos espalhados pelas notícias da imprensa, em meio aos rebuliços das leis para a Copa-14 – relacionando até mesmo essas com aquelas do código florestal -, o ato de Messi ter se tornado o maior artilheiro do Barça, e logicamente, a marcante saída de Teixeira do cargo que ocupou por 23 anos, tive me que conter ao rever, semana passada, o ‘choque’. Aquela sensação pontual que pode, e deve, ocorrer com você, pelo menos por uma vez em sua passagem por aqui.
Aliás, por vezes, o choque é seguido por chances – clichezada por ‘todos merecem uma segunda chance’, por outras vezes, até mais.

Mas este caso – o de Adriano – sempre me interessou por mais de um motivo. Ou me enfuriou por mais de um motivo.

Pois Adriano sempre foi notável por seu talento, que foi lapidado, sua habilidade como avante de centro, que foi desenvolvida, e um caráter duplo, confiável e desconfiável. Claro que tudo isso envolveu uma série de outros fatores, mas o atacante nunca me cheirou ‘total confiança’. Pelo que fez, e o que ainda faz.

Mentalmente, Adriano nunca foi tão constante como seu ‘predecessor’ na nove, Ronaldo – não era de se esperar que fosse. Mas Adriano nunca mesmo foi o nove. Em 2006, foi um coadjuvante, vestindo a 7 de Jairzinho, no time protagonizado por ilustres coadjuvantes, que eram mais ‘stars’ do que aqueles de 70, e que eram, também, protagonistas em seus clubes – entre o próprio Ronaldo, Kaká, Ronaldinho, Robinho, Roberto Carlos, Cafu e outros mais. Não, ele não teve culpa na eliminação.

Mas, quatro anos depois, foi sua culpa ter enfraquecido o plantel de Dunga para o primeiro Mundial da África. Foi sua culpa ter se retirado da convocatória final, após a série de faltas a treinos no Flamengo e, como é de se notar em comum nas suas passagens por clubes, suas polêmicas presentes no cotidiano de lá.

A notícia – em meio a várias outras, culminando em presenças de destaque na imprensa nessa última semana – da rescisão de contrato por parte do Corinthians com relação ao Imperador – sem mais imperar em absolutamente nada, por ora, ao menos – era esperada. Pois o símbolo flamenguista na conquista de 2009 ainda continuava com sua indisciplina constante na vida de corintiano, ainda sim, fora de forma. E a cabeça em outro planeta.

Mas não neste aqui.

O habilidoso canhoto obteve a chance, em março do ano passado, para voltar a imperar em um time de ponta e, apesar de ter tido ‘azar’ – usarei um conceito possível, mas duvidoso, aqui -, também construiu o seu próprio. Construiu pois seu caráter, ainda que seja bom, tornava-se duvidoso – assim como o conceito de sorte-revés que construí acima. Ficou-me, porém, caracterizada uma outra questão nesse tempo de ‘mais uma transição’ na carreira do carioca: o que deve estar passando por sua cabeça?

Um que, mais do que pela primeira vez, o excelente, em seu tempo de interessado pelo jogo, atacante, sabe que esta será uma de suas últimas chances – quiçá a última – atuando por um time da grandeza do Flamengo. Dois que, ainda que tenha passado por isso mais do que apenas uma vez, Adriano deve ter o feeling do choque de realidade, desta vez mais forte do que as outras. O carioca sabe que as chances acabam, e que ele, apesar de já ter sido o Imperador, hoje já não pode comandar seu próprio destino como antes pudera, mas deve depender das súbitas expectativas de terceiros para seus desejos se concretizarem.

Este sentimento de ‘Mamãe, voltei para casa’ não pode ser encarado por ele como mais uma chance qualquer, não. E nem para se constatar seu mau costume dentro do esporte, que já se frustrou com as oportunidades concedidas ao avante e que não foram aproveitadas. Adriano apenas se agarrou com consistência em períodos. Mas foi pouco. O Brasileirão de 2009 é o contexto perfeito para a análise mais elaborada de seu extraordinário caso. Prévias antes da Copa, ele estava dando bobeira – a eliminação para a Universidad também pesou no seu desinteresse pela coisa, mas não deveria.

Desta vez, mais do que outra, a cabeça dele deve, e espero que assim esteja, ser mais minuciosa com suas decisões. O seu choque de realidade mor aí está. Resta apenas saber se essa mesma cabeça vai deixar ele trabalhar se a tão esperada chance no Flamengo, de fato, surgir.

Adriano - no sweat, no glory

Por: Felipe Saturnino

07/03/2012

Orgasmo cósmico

A melhor atuação – pelo menos pela parte da minha memória afetiva – que já vi de um único jogador num jogo de futebol foi a de Lionel Messi, pelas quartas-de-final da Champions League da temporada 2009/10; sim, a mesma temporada em que o todo poderoso sucumbiu para a Internazionale. Mas vale a lembrança para o deleite de quem se recorda puramente do momento mágico que vivemos naquele dia.

Um por, magistralmente, o Barcelona ser o Barcelona. Dois por vermos Messi. E claro que as constelações Ini e Xavi surgem posteriormente – na ocasião, todavia, o marcador do tento que deu à Espanha a primeira conquista mundial estava lesionado.

Foi fantástico observar Messi fazer todos os gols daquela goleada estarrecedora sobre o ‘melhor’ Arsenal de Wenger, ao menos no que diz respeito às últimas temporadas do francês no comando do esquadrão londrino. E também a maneira como foi constituída a goleada, constando de Nicklas Bendtner como abridor de placar no Camp Nou.

O primeiro de Messi foi após uma rebatida na entrada da área do Arsenal, proveniente de Silvestre – o lateral/zagueiro francês -, empatando com um chute certeiro no ângulo. O segundo de Lionel – bem como o do Barça – foi após uma jogada estilística, com entradas periféricas na área adversária, até o passe de ‘Pedrito’ para o 10 do maior do mundo chutar e fazer com a perna direita. E os outros dois foram pintura.

A primeira obra foi por cobertura, após passe de cabeça do malinês Keita. A segunda foi algo mais. Pois, Messi costurou até adentrar a área do Arsenal e, mesmo permitindo o rebote de Almunia no primeiro chute, não podia se culpar o arqueiro pela atuação assustadora do argentino, que guardou o quarto tento. Um monstro. Um gênio. Impiedoso.

Uma atuação digna para ressaltar o nível de um orgasmo cósmico por parte do argentino, aquele nível que, raramente, jogadores raríssimos são permitidos de explorar, e conhecê-lo. Repetir é algo mais complicado. Não impossível, porém.

Uma atuação que se transformou na minha predileta. Apesar de sempre reparar os jogos de Messi como um fenômeno quase inalcançável no esporte, aquele foi de nível muito, muito alto. Quatro tentos em uma disputa de quartas com o Arsenal pela Champions League pode te fazer pensar no nível utópico que Leo atingiu. Quase inalcançável.

O orgasmo de gala desta quarta-feira só faz-nos pensar ainda mais sobre esses fenômenos, invariavelmente, dados como raros. Tal qual, analogamente, o Barcelona como um esquadrão alcançou um nível cósmico diante o maior rival, em novembro de 2010 – os 5 a 0 do Camp Nou. Porque Messi superou a minha preferida atuação dele – a mais afetiva que tenho, ao menos. Genialmente, o argentino alcançou o seu 228º gol com a camisa do Barça, pronto para se tornar, mais do que oficialmente, o maior da história do maior do mundo.

Sim, Messi fez 5 gols contra o Leverkusen, no mesmo estádio em que fizera os 4 diante o Arsenal, naquela atuação cósmica. Mas hoje ele superou-se. Provando que pode explorar mais de uma vez um nível absurdo.

E incrível acreditar que, em jogos comuns, ele atinge esse nível com frequência.

Messi - explorando níveis cósmicos dentro do futebol

Por: Felipe Saturnino

01/03/2012

Dique

Logo após sua terceira conquista do prêmio de melhor do mundo – e a terceira consecutiva – no FIFA Ballon D’or (fusão do prêmio FIFA com a revista France Football) referente ao ano passado, Lionel Messi disse o que pretendia explorar mais no caminho da sua carreira para dar a outros outra vista da mesma: o sucesso na seleção argentina.
As críticas em relação ao argentino jogando na representação de seu país sempre foram um tanto injustas em alguns pontos – apesar de em momentos, pouquíssimos, é verdade, fazerem sentidos.

Nunca se pôde mensurar o nível de Messi como o ‘padrão-Barcelona’ na Argentina por, na equipe catalã, ter-se um esquadrão histórico que se desenhou em circunstâncias específicas, também históricas, o que só torna o fato ainda menos constante e comum. Até para um gênio como Messi.

A atuação mais desapontante do argentino que me recordo em tempos recentes foi aquela diante a Colômbia, pela segunda rodada da Copa América do último ano. Naquele jogo, até direito a uma falta no outro lado da arquibancada Leo teve. A frustração de não jogar bem com consistência na seleção argentina, porém, não foi o fator que derrubou-os nas quartas-de-final, contra o Uruguai – naquela ocasião, Messi fez ótima participação em campo.

O que simplesmente sempre pareceu-me um pouco muito injusto foram as críticas para cima de ‘La Pulga’.

Mas como recorri à declaração de Leo no início do texto, ficava claro que o objetivo dele era ter um cuidado mais especial com os seus passos na esquadra argentina.

E no fundo, sabemos que ‘Messias’ – pois ‘Dios’ é o outro canhoto dono da dez na conquista de 86 -, de um jeito ou de outro, nunca faz um jogo ‘ruim’. Confundimo-nos, enganamo-nos pelo que – agora sim – ‘Deus’ faz no Barcelona, com tão incrível sutileza, elegância, facilidade e normalidade. Por esta razão ‘crucificamos’ o dez com tanta facilidade, sem nos dar conta que estamos na presença de divindades quando se trata do melhor time do mundo. E de ‘divindade’ – ainda mor que outras – quando tratamos de seleção argentina.

No fundo, contudo, sabíamos que Messi, já como dissera no começo do ano em Zurique, tentaria desgarrar com a seleção, tentaria fazer algo mais ‘marcante’ com a seleção. Como se soubéssemos que, em um momento randômico, um gênio viria com uma ‘pequena solução’ para um problema que quase todos indicam ser ‘quase insolúvel’.

Em Berna, na Suíça, tivemos o predito. O dique de Messi se abriu. Melhor, aliás, o dique se abriu para Messi. Pelo menos na seleção. Ainda que seja um jogo ‘pequeno’, e o problema, consistentemente, grande, respostas progridem. E o dique se arrebentou pela primeira vez na direção de hoje. Para Messi, hat-trick, com a camisa argentina, nunca antes ocorrera. Sim, o dique se abriu. Respostas progridem. E Messi é o melhor do mundo. E gênios precisam dar respostas. Não que seja necessário.

Mas se é o que querem, sim.

Messi - com o dique aberto e partindo para as respostas

Por: Felipe Saturnino