Choque de realidade

De uma hora para outra, uma vontade – que não vou adjetivar de inesperada – bateu para escrever no blog. E vontade pode, até mesmo deve, ser substituída ou composta por dever no contexto utilizado, aqui. Mas sim, bateu aquele feeling que indicava mais claramente algo para mim aqui: escrever, como é de hábito.

É meu dever. E minha vontade.

Porém, com tantos assuntos espalhados pelas notícias da imprensa, em meio aos rebuliços das leis para a Copa-14 – relacionando até mesmo essas com aquelas do código florestal -, o ato de Messi ter se tornado o maior artilheiro do Barça, e logicamente, a marcante saída de Teixeira do cargo que ocupou por 23 anos, tive me que conter ao rever, semana passada, o ‘choque’. Aquela sensação pontual que pode, e deve, ocorrer com você, pelo menos por uma vez em sua passagem por aqui.
Aliás, por vezes, o choque é seguido por chances – clichezada por ‘todos merecem uma segunda chance’, por outras vezes, até mais.

Mas este caso – o de Adriano – sempre me interessou por mais de um motivo. Ou me enfuriou por mais de um motivo.

Pois Adriano sempre foi notável por seu talento, que foi lapidado, sua habilidade como avante de centro, que foi desenvolvida, e um caráter duplo, confiável e desconfiável. Claro que tudo isso envolveu uma série de outros fatores, mas o atacante nunca me cheirou ‘total confiança’. Pelo que fez, e o que ainda faz.

Mentalmente, Adriano nunca foi tão constante como seu ‘predecessor’ na nove, Ronaldo – não era de se esperar que fosse. Mas Adriano nunca mesmo foi o nove. Em 2006, foi um coadjuvante, vestindo a 7 de Jairzinho, no time protagonizado por ilustres coadjuvantes, que eram mais ‘stars’ do que aqueles de 70, e que eram, também, protagonistas em seus clubes – entre o próprio Ronaldo, Kaká, Ronaldinho, Robinho, Roberto Carlos, Cafu e outros mais. Não, ele não teve culpa na eliminação.

Mas, quatro anos depois, foi sua culpa ter enfraquecido o plantel de Dunga para o primeiro Mundial da África. Foi sua culpa ter se retirado da convocatória final, após a série de faltas a treinos no Flamengo e, como é de se notar em comum nas suas passagens por clubes, suas polêmicas presentes no cotidiano de lá.

A notícia – em meio a várias outras, culminando em presenças de destaque na imprensa nessa última semana – da rescisão de contrato por parte do Corinthians com relação ao Imperador – sem mais imperar em absolutamente nada, por ora, ao menos – era esperada. Pois o símbolo flamenguista na conquista de 2009 ainda continuava com sua indisciplina constante na vida de corintiano, ainda sim, fora de forma. E a cabeça em outro planeta.

Mas não neste aqui.

O habilidoso canhoto obteve a chance, em março do ano passado, para voltar a imperar em um time de ponta e, apesar de ter tido ‘azar’ – usarei um conceito possível, mas duvidoso, aqui -, também construiu o seu próprio. Construiu pois seu caráter, ainda que seja bom, tornava-se duvidoso – assim como o conceito de sorte-revés que construí acima. Ficou-me, porém, caracterizada uma outra questão nesse tempo de ‘mais uma transição’ na carreira do carioca: o que deve estar passando por sua cabeça?

Um que, mais do que pela primeira vez, o excelente, em seu tempo de interessado pelo jogo, atacante, sabe que esta será uma de suas últimas chances – quiçá a última – atuando por um time da grandeza do Flamengo. Dois que, ainda que tenha passado por isso mais do que apenas uma vez, Adriano deve ter o feeling do choque de realidade, desta vez mais forte do que as outras. O carioca sabe que as chances acabam, e que ele, apesar de já ter sido o Imperador, hoje já não pode comandar seu próprio destino como antes pudera, mas deve depender das súbitas expectativas de terceiros para seus desejos se concretizarem.

Este sentimento de ‘Mamãe, voltei para casa’ não pode ser encarado por ele como mais uma chance qualquer, não. E nem para se constatar seu mau costume dentro do esporte, que já se frustrou com as oportunidades concedidas ao avante e que não foram aproveitadas. Adriano apenas se agarrou com consistência em períodos. Mas foi pouco. O Brasileirão de 2009 é o contexto perfeito para a análise mais elaborada de seu extraordinário caso. Prévias antes da Copa, ele estava dando bobeira – a eliminação para a Universidad também pesou no seu desinteresse pela coisa, mas não deveria.

Desta vez, mais do que outra, a cabeça dele deve, e espero que assim esteja, ser mais minuciosa com suas decisões. O seu choque de realidade mor aí está. Resta apenas saber se essa mesma cabeça vai deixar ele trabalhar se a tão esperada chance no Flamengo, de fato, surgir.

Adriano - no sweat, no glory

Por: Felipe Saturnino

One Comment to “Choque de realidade”

  1. É difícil saber se mesmo na cidade e no clube onde mais se sente à vontade Adriano voltará a ser o grande jogador que já foi. Porque ele já mostrou que não respeita o limite entre estar à vontade e esculhambar com a vida de atleta profissional…

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