DesuMano

Mano fez como o Palmeiras, e caiu.

Caiu, também por causa de si, e mais porque o derrubaram. E o prédio tardou a ser implodido. A um ano e meio do Mundial de 14, Mano não deixou legado. Talvez nem mesmo seu 4-2-3-1 seja legado, nem a opção sem centroavante também. O que Mano fez foi tampar o buraco provisoriamente para dar um caminho à safra que enjoa de juventude, que a possui em demasia, e também tem talento. Até mesmo muito talento.

De modo algum, então, a safra é fraca. Mano era, entretanto, não tão condizente com a pressão que sofreria por administrar essa safra, e também, para fazer o elo com o passado para traçar o futuro – Mano demorou alguns momentos para trazer algum referencial antigo para o time atual, apesar de, certamente, ele ter pensado em fazê-lo mais cedo, mas não o realizava por causa da qualidade e da situação dessas “referências”. O time necessitava de referências, e com as convocações de Ronaldinho, e com as constantes últimas pedidas por Kaká, esse aspecto foi amenizado.

Quando iniciou seu trabalho em agosto de 2010, aliás, os Estados Unidos foram derrotados por uma seleção que cheirava a ótima coisa. E que almejava excelentes hábitos posteriores – isso se resumindo às conquistas. Essa presunção talvez fosse válida. Mas era apenas um preview do que não tardaria a vir.

Em 2011, a Copa América foi um desastre. Foi “um desastre”. Não foi “o desastre”. Esse artigo definido requer especificidade, importância integral. Com um ano de trabalho, Menezes não obteve êxito na Argentina. Era compreensível. Utilizava o 4-2-3-1, a moda, o fashion, o glamour da contemporaneidade. A incompetência dos penais só serve de ilustração para o desastre. “Só”. O time não fez bons jogos, empatou três e venceu um. Não perdeu, se é consolo. Bem que poderia tê-lo diante dos paraguaios, no jogo da primeira fase – pois na quarta-de-final, o Brasil teve as chances, só não as aproveitou. Não ocorreu. Fred empatou nos instantes finais. A competição teve como vencedor o Uruguai, então melhor equipe do continente. A Argentina hoje é bem mais confiável e entusiasma com Messi, Di María, Agüero e Pipita Higuaín.

A albiceleste, aliás, protagonizou com a amarilla um jogo sem energia qualquer na quarta, no templo xeneize dos Juniors. A vitória dos manos de Mano nos penais veio como qualquer coisa, mais que “uma coisa diferente”. Os argentinos de Sabella levaram no tempo normal (2 a 1), porém Neymar conseguiu sacramentar o bicampeonato do Superclássico das Américas. Para Mano, nem importava.

O calendário da seleção não o auxiliou nesse tempo todo, é bem verdade. Esse Superclássico, por exemplo, é inequivocamente um equívoco. É um jogo sem importância, que degenera a imagem tão bela, fantasiosa, brilhante e fascinante que um jogo entre brasileiros e argentinos possui. Mas, fazendo assunto do calendário, que não é o maior vilão, mas prejudicou Mano, o que restou-lhe foi enfrentar equipes certamente mais fortes que fizeram-lhe apenas mal. A França e a Alemanha lhe deram derrotas, e mais descrença. No jogo diante dos hermanos, em New Jersey, talvez seja mais relativizada a derrota. E nem mesmo problema foi o baile diante dos comandados de Löw, que no placar de fato não foi baile – 3 a 2 em jogo tremendo dos germânicos.

A derrota diante da Alemanha é, assim, também justificável. Tal qual a sofrida contra os franceses. E também aquela contra a Argentina. Aquela mais longínqua, no Catar, decerto ficou no caminho maldito feito por Mano. Douglas perdeu a bola e Messi, como deve ser, fez um gol que deu o trunfo aos então argentinos de Batista. Hoje é Sabella quem dá as cartas por ali.

Nos Jogos Olímpicos, o que Mano esperava era pelo ouro. Favoritismo após a eliminação dos espanhóis e uruguaios. Os mexicanos provaram ser melhores, com Peralta anotando os tentos rendedores da conquista maior da equipe que sempre dá calafrios a qualquer categoria do futebol brasileiro. Mano poderia – deveria, este é o verbo melhor aqui – ter caído ali. Não aconteceu. A opção provisória era para finalizar o ano.

No overall, Mano não fez tão mal. E nem bem fez também. Mas, a situação da equipe brasileira deve se atenuar com o tempo, se fixando em outros valores após a expulsão do arrumador de casas. A pior parte, ainda assim, pode não ter passado. Mano, pois, deixou um esquema e um time que devem ser modificados. Ainda assim, a relocação de mobília na casa deve ser sucinta, minuciosamente detalhada.

De fato, para um Mundial de futebol, Mano não era o mestre em avalizar a pressão. Desumanidade mesmo foi fazê-lo de tolo esperando ficar como técnico da esquadra principal integralmente até o final do ano. Foi injusto. Um recesso, novamente, um recesso. Apelar às soluções talvez previamente aceitas, como Scolari, é algo necessário.

Pois requisitar Guardiola exige mais tempo, menos risco e com certeza menos pressão. Por mais que seja Pep, ainda o grande Pep dos culés. E, também, demanda menos desumanidade. Com Mano, foi tudo que se teve. Montar um time notavelmente promissor, jovem, e creditar a Mano a absorção de tanta pressão, bem, talvez não fosse tão indicado. Até por isso, Menezes era uma segunda opção na corrida pelo cargo de treinador, tal liderada então por Muricy – hoje ele é muito menos unanimidade que então.
Mano, pois, sofreu uma desumanidade com a ilusão de sua manutenção do cargo e do time próprio. Politicamente, sua vida era inviável. A pressão era muito grande. E o trabalho já não era tão ruim. Agora, o tempo é ainda menor, e a seleção vai mudar. Com quem, se Mano, um qualificado – talvez não ao ponto do nível da seleção – treinador, foi demitido abruptamente e assim, tão assim?

Talvez requisitem Dunga. Ou tomem não de Muriçoca. Ou tomem sim de Tite, e recusem-no pelo perfil. Mas, e se Andrés gosta dele? No jogo da seleção, políticas desumanas, que previamente não seriam desumanas e sim certas, ocorrem. E se deixam transparecer.

Por: Felipe Saturnino

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