Archive for ‘Josep Guardiola’

26/11/2012

Por que (não) arriscar?

Ainda Mano como técnico, os rumores sobre sua saída borbulhavam. A descrença no seu trabalho era evidente, e vívida. A torcida pressionava pela reprovação. Parece que isso foi ontem.

Pois foi anteontem. Quando na sexta, se disse da sua saída, sua saída oficial, contornou-se a situação do tampão. Mano não era um. De fato, uma ala na CBF não possui simpatia por sua figura. O staff de Sanchez perdeu, como o mesmo disse, e este foi “voto vencido”. Enfim, Mano sucumbia à pressão, mas no seu momento indevido.

Talvez o ex-Corinthians não fosse mesmo um técnico com a qualidade para habitar um cargo tão alto assim no âmbito do futebol nacional, e também, internacionalmente, já que a importância do nosso futebol extrapola seus limites territoriais. Sua influência no esporte é demasiadamente grande, e assim a de Mano teria de ser. De fato, enfim Mano agora achava algum traço significativo para a sua seleção. Sem mudança tática de grande importância, pois ele apostava na moda e acreditava que a questão fundamental não era seu sistema tático, mas sim fatores mais humanos, menos estratégicos.

Quando se fala de sua substituição, surgem nomes diversos, e também despontam específicos. Muricy talvez fosse pelo agregado do merecimento recente que obteve, mas hoje o impacto de suas conquistas ecoa bem menos que em 2010, e nem é mais tão unanimidade hoje quanto era na época referida. Felipão é campeão mundial, apesar de seus deméritos recentes como treinador e uma conquista importante mas não tão significativa com o Palmeiras – de fato, seu time era limitado. Tite tem de manter seu melhor trabalho, continuando no Corinthians. Seu perfil não é tão abrangente quanto os de Muriçoca e Scolari. E Luxemburgo? É uma possibilidade. Porém, sua vice-liderança e a vaga direta na Liberta podem muito bem lhe influenciar numa escolha da CBF para o mês de janeiro, e é certo que seus melhores tempos já se foram há muito. É um coadjuvante nessa competição.

Esqueçam-se de outros nomes. Só não do mais esperado.

Josep Guardiola poderia desfilar sua elegância com ternos exuberantes e gravatas bem marcadas com a seleção de maior glamour do futebol mundial? Decerto. Mas, ele exige tempo, menos risco e mais certeza. A um ano e meio da Copa, o que não obtivermos de certeza significará fracasso, e no caso atual, é o que ocorreria lá. Por isso, um técnico tão menos interessante deveria aparecer no cenário para amenizar a crise, reformular o plano e replanejar a equipe como um todo. Não que com esses seja mais certo. Mas, com Pep, o mais justo seria cercá-lo com tempo e confiança, menos interesse político para não acarretar uma demissão “desumana”. Mano pode dizê-lo muito bem.

E se ele assumisse amanhã?

Dificilmente algum técnico recusaria uma proposta da amarela. Mesmo assim, por valer de tanto a experiência, e a possível experiência de um técnico estrangeiro treinando a seleção pela primeira vez na história, há de haver tempo. E pressionar sobrecarregando-o para o Mundial de 14 é muita confiança na interessantíssima experiência. O Brasil necessita de algo mais instantâneo, e não de um experimento de longo prazo.

Ainda que ele assumisse amanhã, como deveria fazer se tivesse proposta.

O elegante Pep


Por: Felipe Saturnino

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02/11/2012

O que mais um Ballon D’Or significaria para Messi?

Lionel Messi está à evidência do seu quarto título de melhor futebolista do planeta. O azulgrana detentor da camisa 10, absoluto e absurdo no trono de rei do maior esporte que há, parece querer perpetuar seu monarcado para tornar-se definitivamente uma divindade, mais do que “somente” um gênio que é.
E sobre isso, creio eu, não existem muitas dúvidas. Messi continua a ser o melhor, Ronaldo o segundo – e nisso há uma mera grande vantagem. Iniesta ou Xavi podem ser terceiros – para a FIFA, pode até pintar Pirlo ou Falcao como um terceiro, mas esta seria uma autêntica agradável surpresa por parte da mesma.

Entretanto, é de se reparar que o Barcelona não vivenciou seu melhor momento em três anos com Josep Guardiola, nem ao menos de longe. Na temporada passada, a equipe padeceu diante do Real na Catalunha na liga espanhola, apesar de ter vencido na ida em Bernabeu. O time que era de Pep na ocasião derrotou o Madrid por 3 a 1, desintegrando parcialmente o Real de Mou – que voltou a demonstrar vida quando goleou o Sevilla em Sevilha, logo no entrave seguinte de La Liga. Foi eliminado pelo Chelsea em uma drmática semifinal, em que Messi cometeu o seu único erro no ano: o penal desperdiçado diante do enorme tcheco Cech. Ainda assim, conseguiram vencer a Copa do Rei sobre um Bilbao forte com Bielsa. E foram estas ocasiões de baixa que mostraram o quão grande foi (é) Messi, marcador de 82 gols na temporada 11/12; o Lio que, enfim, jogou num de seus melhores patamares pela seleção albiceleste. O Messi que comanda o time de Sabella, numa espécie de 4-2-3-1 que o deixa livre para ditar ritmo, variar e inverter e ligar os wingers que aceleram o jogo (Di María e Aguero) verticalmente. A fórmula mágica que funcionou no seu melhor ano, indubitavelmente, pela Argentina, e que deu a Leo gols fantásticos como os contra o Brasil (nos 4 a 3 de New Jersey, com a magistral pintura do último tento), gols precursores, como os do hat-trick contra a Suíça (3 a 1, o primeiro jogo em que marcou três com a camisa da Argentina), e gols demonstrativos do quanto Messi conseguiu crescer para o cenário nacional, nos jogos contra Uruguai e Chile, os últimos dois confrontos pelas eliminatórias. E tudo isso ocorreu como promessa – o termo mais válido aqui seria, porém, aviso: quando venceu sua terceira Bola de Ouro, Lionel disse que queria ser maior, mais superlativo e dominante no que envolve o contexto tão delicado da seleção argentina. E isso aconteceu em janeiro. Pouco menos de 10 meses depois, Messi venceu obstáculos e se consolidou definitivamente como o maestro da seleção – talvez não tão grande como Dieguito na popularidade, mas, decerto, aproximando-se de El Pibe na técnica de seu mágico e fenomenal estilo de jogo.

Messi merece, e tem de ganhar mais uma Bola de Ouro pelo que faz por suas equipes, pelos gols de cobertura que marca, pelas fintas sucintas, precisas e minuciosamente calculadas com que rege o jogo na Catalunha, e pela figura que é – apesar disso ser posto seguramente e acertadamente em segundo plano para decidir o prêmio de melhor do mundo. Mas o quão isso verdadeiramente importante lhe é?

Messi, o único tricampeão do prêmio em toda a história, já escreveu seu nome para o infinito sempre de todo o âmbito futebolístico. E isso o coloca entre os maiores da história, talvez o maior do século XXI, de tal forma que nos parece incontestável essa tese. Refutá-la é uma tarefa árdua, e dificilmente alguém conseguirá desbancar todo o envoltório que há ao redor de Messi por causa de seus exacerbados méritos no seu período, tanto quanto breve – que são oito anos – em atividade. Mais um título da FIFA para o argentino significa credenciá-lo a um reinado jamais antes visto, ou talvez até já presenciado, mas há muito. O que se iniciará seguidamente, e novamente, é bem verdade, será sua posição com relação a Pelé. E a posição de melhor da história é sempre digna de muita discussão, e obviamente de um invariável cuidado nas opiniões.
Se o mais significativo é colocar Messi em algum lugar na história ao final de sua brilhante carreira, esperaremos. Mas, agora, já Messi parece estar completamente apto a assumir o posto de melhor da história do jogo. O quarto título de melhor do planeta, que lhe é evidente, mais que apenas e meramente esperado, lhe colocará num estágio numérico, ao menos numérico, sobre geniais Ronaldo e Zidane.

E de fato isso significa muito para La Pulga. E significa por ser mais próximo e comparável à sua realidade que Puskas, Pelé, Cruyff e Maradona são. O que se torna corriqueiro é a constante conexão, que totalmente válida é, entre tempos distintos do futebol que não permitem uma análise coerente, e justa. Mas seria injusto dizer que Messi é o melhor de todos?

O mais coerente e menos assustador, pelo menos agora, é dizê-lo como um excepcional argentino e blaugrana, que está entre os 15 maiores jogadores da história do esporte, e que é o maior deste século. Porém, será evidente que, no gran finale da sua carreira, necessário se tornará falar nele como o maior de todos ou não.

E seria justo considerá-lo o melhor de todos apenas ao final de seu tempo como futebolista? Bem, aí o fim do monarca não representaria o fim da sua monarquia, porém, simplesmente um período de pausa, pois, certamente, Messi já estaria eternizado, seria infinito: um Deus e não só gênio mortal. Mas bem melhor seria poder considerá-lo como o melhor no seu período de atividade, pois assim poderia fruir de seu futebol como o melhor da história.

Messi – o melhor de todos os tempos? No fim, (talvez) saberemos

Por: Felipe Saturnino

19/02/2012

(Des)Confiando

O Real Madrid é virtual campeão espanhol. 10 pontos de vantagem sobre o Barça lhe deram o privilégio de controlar o topo da tabela como bem quis, e agora o primeiro caneco do campeonato nacional para o time forte de Madrid em três temporadas está ficando mais visível.

O Barcelona, porém, ainda é o melhor time do mundo. Por isso que é favorito na Champions League. Mas, a figura mudou um pouco.

Mudou pois o segundo melhor time do mundo, pela primeira vez consistente, consegue ameaçar o reinado da equipe da Catalunha. Consegue pois começa isso no campeonato espanhol – marca que vigora nas conquistas de Pep Guardiola com o Barcelona desde o início de seu comando, no ano de 2008. A hegemonia nacional deverá ter um fim após algum tempo, porém, a questão abrange diversos polos de discussão para a sucessão de trono do melhor time da Europa. Parcialmente, pelo menos.

Em dezembro, Mourinho falhou e, como aqui num post foi descrito posteriormente, ficou sem reação no momento que conflitava com o Barcelona em Bernabeu. O jogo encerrou-se na contagem de 3 a 1, com mais uma decepção para os madridistas.

Fica claro, se já não era óbvio, que a conquista do espanhol não representa uma satisfação total por parte dos madridistas. É preciso fazer mais, porque a rivalidade Real Madrid-Barcelona envolve muita dignidade e autoestima. Até por isso, com algumas cogitações devidamente borbulhadas, José Mourinho não deve permanecer no Real nesta temporada – ainda que conquiste o espanhol.

A figura muda novamente quando falamos de vitória em Champions League, pois se Mou conseguir vencer a competição pela terceira vez em toda sua carreira, ele pode, sim, ficar. O problema seria encarar o Barcelona por mais algumas vezes na carreira, e continuar sofrendo constantemente com isso, apesar de ser o único que realmente incomoda o poderoso esquadrão de Guardiola.

Dentre todas as dúvidas, o Real Madrid está simplesmente impecável, e, sem se arrepender de dizê-lo – mas podendo se arrepender depois -, está no primor de seu jogo em algum tempo. A equipe não tem fraquezas – como nunca teve – e joga bem com consistência, trucidando rivais, mesmo que sejam pequenos, em momentos, apenas. A liderança consta de 61 pontos e 79 gols, tendo sofrido 21. Então, o ‘clash’ entre os maiores do mundo pode ocorrer em estágios mais avançados da competição da Copa do Campeões, para decidirmos se o Barça manterá mesmo a coroa.

Os dois serão favoritos a chegarem às finais do torneio, indubitavelmente.

Assim como é sem dúvida que a confiança do Real Madrid está lá em cima. Com o espanhol praticamente ganho, a única dúvida vai ser em quanto a equipe pode chegar com pilha para o jogo contra o Barcelona no Camp Nou, para o returno. Aí sim, poderemos ter uma decisão prévia da temporada de ambos os times.

No nível dos melhores do mundo, a impressão é de definição por termos um dos melhores times da história do jogo em atividade e indefinição se o time de Mourinho pode detê-lo. Com a confiança – e desconfiança, ao mesmo tempo – que tem-se, o Madrid pode fazê-lo. Questão debatível mesmo é quanto significa vencer o espanhol para apenas realçar uma campanha que pode quebrar nas mãos barcelonistas, mais uma vez. Confiando e desconfiando, indo e vindo, os melhores do mundo vão se encontrar mais algumas vezes este ano. A coroa pode mudar de mãos, pelo menos parcialmente. E vai ser a última chance de Mourinho em Madrid. Ou melhor, desconfio que será.

Cristiano e Real Madrid - viajando na confiança e sendo desconfiados

Por: Felipe Saturnino

19/12/2011

Com ponta ou sem ponta?

O Barcelona não apenas me chama atenção pela beleza de seu futebol, pela essência do ‘tiki-taka’ ou por nomes antológicos como Xavi Hernández, Andrés Iniesta ou Lionel Messi. E também não é algo que passa pela figura tão sutil e suave como a de Josep Guardiola, treinador dos blaugranas.

É algo a mais que só o que é.

O Barcelona do jogo contra o Real Madrid: 4-3-3 para o 3-4-3 do diagrama

Das atuações do ano, a que mais me chamou a atenção do Barça não foi a destruição total diante o Santos, e sim a aulinha pra cima do Real Madrid de Mourinho. E não foi por motivos óbvios – como os que apresentei lá no início do post.

Foi pela mudança tática.

Guardiola, com novas peças, como Thiago e Cesc Fàbregas, soube como renovar o espírito filosófico barcelonista, que por mais pragmático que seja, é mais do que vencedor. Afinal, mudar um desenho tático mais do que consolidado é um tarefa difícil de fazer.

Josep o fez. Melhor, o faz. Com excelência.

O primeiro jogo em que eu presenciei a mudança consolidada, isto é, sem variações num mesmo jogo, foi no embate contra o Villarreal, em agosto. Em Camp Nou, os mandantes fizeram 5 a 0.

Guardiola improvisou e armou a defesa com ‘dois’ volantes: Sergio Busquets e Javier Mascherano. Abidal jogou pelo flanco esquerdo da defesa; na linha da frente do meio-campo, Iniesta, Fàbregas e Thiago foram os atuantes. Os avantes foram Sánchez, Messi e ‘Pedrito’. Mesmo sem laterais, ou melhor, alas, os meias abertos, isto é, Ini e Thiago, provaram a qualidade que possuem e deram suporte aos atacantes. A equipe tinha dois pontas – Sánchez e Pedro -, que clareavam o jogo, tanto quanto centralizavam. Fàbregas infiltrava-se para ocupar o lugar de Messi que, como sempre, flutuava em campo.

Foi uma grande atuação pelo trabalho dos meias.

Contra o Real Madrid, algo mais violento e intenso. Mais variação.

Nesse jogo, o Barça foi de 4-3-3 para 3-4-3, até mesmo 4-4-2, com Busquets se aprofundando em momentos do jogo para formar uma linha de 4 homens na defesa. Guardiola, pela primeira vez, de fato, pôde vencer Mou no ‘braço’, na tática do jogo, enfim. Uma das melhores exibições que, certamente, já vi em minha vida. Sánchez jogou como ponta, porém, sua movimentação era constante: poderia centralizar-se ou, até mesmo permanecer no flanco em que estava. Iniesta, no momento, era algo entre um meia-esquerda e um ponta-esquerda, aprofundando o jogo sobre Fábio Coentrão. Fàbregas e Xavi eram os atuantes mais evidentes da linha de meio-campo, visto que Daniel Alves também aparecia muito forte pelo flanco direito, agredindo o lado de Marcelo, podendo ser dado como ponta-direita.

Contra o Santos, algo mais evidente que pode ser o que o Barcelona está atingindo: o 3-1-4-2.
Daniel Alves foi meia-direita, Xavi e Iniesta meias-centrais originais, Thiago meia-esquerda, e Messi e Fàbregas eram avantes que, mesmo assim, saíam para movimentar-se e provocar mais confusão na defesa adversária. O esquema no jogo de domingo, então, constou sem pontas. Mas, como sempre, o time foi funcional no meio-campo.

E devem ser dados a Pep Guardiola os créditos à tamanha variação que o Barça atingiu neste final de ano. Para renovar uma filosofia, não devemos nos pegar ao novo, mas fazer o velho e bom se tornar o novo e bom. Guardiola está usando a variação a seu favor. Com um ponta ou sem um ponta, o Barcelona pode usar o 4-3-3, o 3-4-3, o 4-4-2 ou o 3-1-4-2. Excelência tática no momento.

O Barcelona do jogo contra o Santos: o 3-1-4-2 para a 'renovação', sem um 'ponta'

Por: Felipe Saturnino