Archive for ‘Textos’

25/12/2011

Jogo de bola, jogo de pedra

O mais fascinante do futebol é que o mais provável pode não ser o que usualmente acontece, culminando na surpresa que os torcedores ou, até mesmo, pessoas ‘sãs’ e imparciais, sofrem num dia comum de disputas do esporte. A lógica é menos lógica. É algo muito incomum.

E, ao analisar um jogo, atribuímos o resultado aos fatores táticos, apresentando diagramas, para amplificar a visão do leitor. E também tento falar do futebol de um jeito mais romântico e menos ‘didático’.

E me surgiu, apenas agora, que num show de inconveniências e surpresas, em que as coisas não seguem um rumo normal, o caminho comum das pedras é desprezado, mesmo existindo. E no meio das inconveniências e surpresas do mundo que respiro e vivo, do mundo que me alimento, apareceu, enfim, a ideia da conveniência num dia de um tão saudoso bordão. Feliz Natal.

E num mundo de inconveniências, a velha conveniência, menos normal mas sutil, é bem-vinda.

Por: Felipe Saturnino

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20/08/2010

Pênalti

Como um cavaleiro colocando a armadura: era assim que ele sentia cada vez que se fardava para o futebol. Um pouco de exagero, claro: afinal, tratava-se de camiseta, não de couraça, e o jogo, bem, o jogo era uma pelada de sábado à tarde, disputada com muita energia mas pouca técnica por um grupo de velhos amigos.

E contudo sentia-se como um cavaleiro preparando-se para a batalha. Porque era um pouco batalha, sim; não ressoavam no campo gritos de guerra nem os uivos dos feridos, mas era um pouco batalha. Sobretudo naquele sábado. Ele não saberia dizer qual a razão, mas sentia que naquele sábado sentia algo muito importante aconteceria. Tentou disfarçar a ansiedade gracejando com os amigos, como de hábito, mas não foi sem inquietação que pisou o gramado.

E tal logo o juiz – que depois estaria com eles no bar, tomando cervejas e comentando os lances masi engraçados do jogo – tão logo o juiz trilou o apito, ele se deu conta do que estava acontecendo.

O centroavante adversário.

Era a primeira vez que estava jogando. O que também tinha um significado: depois de todos aqueles anos, haviam resolvido que estava na hora de convidar outros parceiros, gente mais jovem. Afinal, estavam ficando velhos, breve surgiram lacunas nos times, e era preciso manter aquilo que já se tornara uma tradição, o jogo de sábado.

O centroavante adversário era um rapaz jovem. E era um grande jogador. Isto ficou claro desde os instantes iniciais, pela insolente facilidade com que se apossava da bola, com que driblava os adversários, com que deslocava pelo gramado. Perto dele, os outros jogadores – homens de meia-idade, barrigudos, desajeitados, eram figuras lamentáveis.

Aquele centroavante decidira a partida. Vamos perder, pensou, com um aperto no coração. Nãol suportava perder; não a partida de futebol do sábado. Já lhe bastavam as frustrações do cotidiano, a mediocridade do trabalho na repartição, as recriminações da mulher. No sábado, custasse o que custasse, tinha de ganhar. E o centroavante – que o destino colocara no outro time – não o impediria. Isto deixaria claro. E quanto antes, melhor.

Não demorou muito o rapaz recebeu uma bola, avançou pelo centro do gramado, passou por um, passou por dois, e de repente estava ali invadindo a grande área, pronto a marcar o gol. Não passará, ele rosnou e, cerrando os dentes, partiu ao encontro do inimigo, como um cavaleiro em plena batalha. O rapaz vinha vindo, e claramente passaria por ele se deixasse. Não deixou. Mandou o pé, que não acertou a bola, porque não era para acertar a bola; era para acertar a canela do adversário.

Que, com um grito, caiu.

Por um instante ficaram todos imóveis, perplexos. Depois, correram todos. E ali estava o jovem, retorcendo-se de dor. Ele se ajoelhou ao lado do rapaz:

– Desculpe, meu filho – disse, confuso – eu não quis machucar você.

O rapaz tentou esboçar um sorriso.

– Eu sei. Você é ruim mesmo. Se soubesse que tinha um pai tão ruim não teria vindo jogar.

Com a ajuda dos outros, que agora riam e debochavam, o centroavante pôs-se de pé.

– Eu acho – disse o juiz– que vou ter de dar pênalti.

Com o que todos concordavam: agresssão de pai era caso, no mínimo, de pênalti. Talvez até de expulsão. O próprio rapaz cobrou a penalidade máxima. Com sucesso, naturalmente: afinal, era um grande jogador, como o pai, de olhos úmidos, teve de reconhecer. Com melancolia, mas sem nenhum rancor; se tinha de perder – e tinha de perder – era preferível que perdesse para o filho. E se precisasse ajudá-lo com um pênalti – bem, por que não?

Moacyr Scliar

18/07/2010

Corinthians (2) vs Palestra (1)

Prrrrii!
– Aí, Heitor!
A bola foi parar na extrema esquerda. Melle desembestou com ela.
A arquibancada pôs-se em pé. Conteve a respiração. Suspirou:
– Aaaah!
Miquelina cravava as unhas no braço gordo da Iolanda. Em torno do trapézio verde a ânsia de vinte mi1 pessoas. De olhos ávidos. De nervos elétricos. De preto. De branco. De azul. De vermelho.
Delírio futebolístico no Parque Antártica.
Camisas verdes e calções negros corriam, pulavam, chocavam-se, embaralhavam-se, caíam, contorcionavam-se, esfalfavam-se, brigavam. Por causa da bola de couro amarelo que não parava, que não parava um minuto, um segundo. Não parava.
– Neco! Neco!
Parecia um louco. Driblou. Escorregou. Driblou. Correu. Parou. Chutou.
– Gooool! Gooool!
Miquelina ficou abobada com o olhar parado. Arquejando. Achando aquilo um desaforo, um absurdo.
Aleguá-guá-guá! Aleguá-guá-guá! Hurra! Hurra! Corinthians!
Palhetas subiram no ar. Com os gritos. Entusiasmos rugiam. Pulavam. Dançavam. E as mãos batendo nas bocas:
– Go-o-o-o-o-o-ol!
Miquelina fechou os olhos de ódio.
– Corinthians! Corinthians!
Tapou os ouvidos.
– Já me estou deixando ficar com raiva!
A exaltação decresceu como um trovão.
– O Rocco é que está garantindo o Palestra. Aí, Rocco! Quebra eles sem dó!
A Iolanda achou graça. Deu risada.
– Você está ficando maluca, Miquelina. Puxa! Que bruta paixão!
Era mesmo. Gostava do Rocco, pronto. Deu o fora no Biagio (o jovem e esperançoso esportista Biagio Panaiocchi, diligente auxiliar da firma desta praça G. Gasparoni & Filhos e denodado meia-direita do S. C. Corinthians Paulista, campeão do Centenário) só por causa dele.
– Juiz ladrão, indecente! Larga o apito. Gatuno!
Na Sociedade Beneficente e Recreativa do Bexiga toda a gente sabia de sua história com o Biagio. Só porque ele era freqüentador dos bailes dominicais da Sociedade não pôs mais os pés lá. E passou a torcer para O Palestra. E começou a namorar o Rocco.
– O Palestra não dá pro pulo!
– Fecha essa latrina, seu burro!
Miquelina ergueu-se na ponta dos pés. Ergueu os braços. Ergueu a voz:
– Centra, Matias! Centra, Matias!
Matias centrou. A assistência silenciou. Imparato emendou. A assistência berrou.
– Palestra! Palestra! Aleguá-guá! Palestra Aleguá! Aleguá!
O italianinho sem dentes com um soco furou a palheta Ramenzoni de contentamento.
Miquelina nem podia falar. E o menino de ligas saiu de seu lugar. todo ofegante, todo vermelho, todo triunfante, e foi dizer para os primos corinthianos na última fileira da arquibancada:
– Conheceram, seus canjas?
O campo ficou vazio.
– Ó… lh’a gasosa!
Moças comiam amendoim torrado sentadas nas capotas dos automóveis. A sombra avançava no gramado maltratado. Mulatas de vestidos azuis ganham beliscões. E riam. Torcedores discutiam com gestos.
– Ó… lh’a gasosa!
Um aeroplano passeou sobre o campo.
Miquelina mandou pelo irmão um recado ao Rocco.
– Diga pra ele quebrar o Biagio que é o perigo do Corinthians.
Filipino mergulhou na multidão.
Palmas saudaram os jogadores de cabelos molhados.
Prrrrii!
– O Rocco disse pra você ficar sossegada.
Amilcar deu uma cabeçada. A bola foi bater em Tedesco que saiu correndo com ela. E a linha toda avançou.
– Costura, macacada.
Mas o juiz marcou um impedimento.
– Vendido! Bandido! Assassino!
Turumbamba na arquibancada. O refle do sargento subiu a escada.
– Não pode! Põe pra fora! Não pode!
Turumbamba na geral. A cavalaria movimentou-se.
Miquelina teve medo. O sargento prendeu o palestrino. Miquelina protestou baixinho:
– Nem torcer a gente pode mais! Nunca vi!
– Quantos minutos ainda?
– Oito.
Biagio alcançou a bola. Aí, Biagio! Foi levando, foi levando. Assim, Biagio!
Driblou um. Isso! Fugiu de outro. Isso! Avançava para a vitória. Salame nele, Biagio! Arremeteu. Chute agora! Parou. Disparou. Parou. Aí! Reparou. Hesitou. Biagio Biagio! Calculou. Agora! Preparou-se. Olha o Rocco! É agora. Aí! Olha o Rocco! Caiu.
– CA-VA-LO!
Prrrrii!
– Pênalti!
Miquelina pôs a mão no coração. Depois fechou os olhos. Depois perguntou:
– Quem é que vai bater, Iolanda?
– O Biagio mesmo.
– Desgraçado.
O medo fez silêncio.
Prrrrii!
Pan!
– Go-o-o-o-ol! Corinthians!
– Quantos minutos ainda?
Pri-pri-pri!
– Acabou, Nossa Senhora!
Acabou.
As árvores da geral derrubaram gente.
– Abr’a porteira! Rá! Fech’a porteira! Prá!
O entusiasmo invadiu o campo e levantou o Biagio nos braços.
– Solt’o rojão! Fiu! Rebent’a bomba! Pum! CORINTHIANS!
O ruído dos automóveis festejava a vitória. O campo foi-se esvaziando como um tanque. Miquelina murchou dentro de sua tristeza.
– Que é – que é? É jacaré? Não é!
Miquelina nem sentia os empurrões.
– Que é – que é? É tubarão? Não é!
Miquelina não sentia nada.
– Então que é? CORINTHIANS!
Miquelina não vivia.
Na Avenida Água Branca os bondes formando cordão esperavam campainhando o zé-pereira.
– Aqui, Miquelina.
Os três espremeram-se no banco onde já havia três. E gente no estribo. E gente na coberta. E gente nas plataformas. E gente do lado da entrevia.
A alegria dos vitoriosos demandou a cidade. Berrando, assobiando e cantando. O mulato com a mão no guindaste é quem puxava a ladainha:
– O Palestra levou na testa!
E o pessoal entoava:
– Ora pro nobis!
Ao lado de Miquelina o gordo de lenço no pescoço desabafou:
– Tudo culpa daquela besta do Rocco!
Ouviu, não é Miquelina? Você ouviu?
– Não liga pra esses trouxas, Miquelina.
Como não liga?
– O Palestra levou na testa!
Cretinos.
– Ora pro nobis!
Só a tiro.
– Diga uma cousa, Iolanda. Você vai hoje na Sociedade?
– Vou com o meu irmão.
– Então passa por casa que eu também vou.
– Não!
– Que bruta admiração! Por que não?
– E o Biagio?
– Não é de sua conta.
Os pingentes mexiam com as moças de braço dado nas calçadas.

Conto do livro “Brás, Bexiga e Barra Funda”, da obra de Alcântara Machado.

06/07/2010

Jogo de bola

A bela bola
rola:
a bela bola do Raul.

Bola amrela,
a da Arabela.

A do Raul,
azul.

Rola a amarela
e pula a azul.

A bola é mole,
é mole e rola.

A bola é bela,
é bela e pula.

É bela,rola e pula,
é mole,amarela,azul.

A de Raul é de Arabela,
e a de Arabela é de Raul.

Cecília Meireles

06/07/2010

O futebol..

“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”

Nelson Rodrigues

05/07/2010

O futebol brasileiro evocado da Europa

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

João Cabral de Melo Neto