Entrevista: Michael Cox

As perguntas saíram. As respostas demoraram. Porém, não tardaram. A seção de entrevistas no blog sempre esteve muito bem separada das outras e, aliás, foi criada há muito tempo. Mas o dono do excelente blog Zonal Marking sempre ‘oferecia alguma resistência’ – óbvio que a expressão em aspas é uma maneira de discursar. Nos curtos mas muitos emails que trocamos, Michael Cox sempre alegava estar ocupado; e não deve ser menos do que a pura e simples verdade. Afinal, quando se alcança tal nível de sucesso e reconhecimento, as habilidades devem ser lotadas em todos e para todos os aspectos. E, ainda assim, ele tratou-me bem, dando-me sua legítima pontualidade inglesa ao entregar as respostas para a entrevista no início de maio. Só demorei mesmo a traduzir suas opiniões.

Com um blog dotado de extrema imparcialidade – como tem de ser -, Cox alia sua grandíssima capacidade de análises táticas à sua visão ímpar do entendimento do jogo, tanto no aspecto individual – como reparar o trabalho de um jogador ou um técnico, e admitir sua competência – quanto no coletivo. Com um texto modificado, Cox conflita diretamente com o jeito ‘crônico’ de um jornal expor uma análise de um jogo de futebol – mesmo usando-se de marcações temporais dentro de uma peleja para indicar algum fenômeno tático -, desprezando outros aspectos, a não ser os que reflitam diretamente na estratégia do jogo. Ele concentra sua atenções nos excelentes diagramas que posiciona em suas análises.

Após quase seis meses de primeiro envio das perguntas da entrevista, aqui estão algumas respostas suas para algumas poucas – mas importantíssimas – perguntas.

Felipe Saturnino – Michael, desde quando você escreve textos com este tipo ‘diferente’ de análise?
Michael Cox – Eu comecei de uma forma bem casual em outubro de 2009, aí, comecei a usar um site próprio com um design próprio, visando a Copa do Mundo (2010).

FS – Sobre o seu blog (Zonal Marking): como a ideia de criá-lo apareceu?
MC – Toda a ideia por trás do site era apenas cobrir jogos de um modo um pouco diferente do dos jornais, olhando para o como e o porquê de jogos serem vencidos por determinados times, ao invés de apenas falar da ação que ocorreu no jogo. Eu acho que há muita cobertura (atenção) sobre, por exemplo, transferências de jogadores e coisas como isso, então resolvi apenas falar do que acontece, de fato, no campo – que é o que eu faço.

FS – Hoje em dia, o 4-2-3-1 é o sistema tático predominante. Na sua opinião, qual é o seu segredo?
MC – Seus muitos benefícios. (A) Defende-se com duas linhas de quatro homens, o que, pelo menos para mim, parece ser mais confortável aos jogadores; (B) Possui dois jogadores mais recuados (volantes), então, um pode marcar o 10 adversário ou qualquer outro que atue por aquela área do campo e o outro pode fazer uma cobertura maior da zona. (C) Possui, também, um jogador de criação centralizado, que pode criar mais do que qualquer um outro. (D) Cria mais ‘parcerias’ do que um 4-3-3, por exemplo. (E) Os laterais podem agredir os lados e ser cobertos pelos volantes. (F) Nenhum jogador é totalmente excluído, como, contrariamente, ocorre com o 10 no 4-3-3. (G) É flexível – os 4-2-3-1s usados por Espanha, Holanda, Brasil e Alemanha em 2010 eram bem diferentes entre si.

FS – Aconteceu há muito tempo, mas parece ser significativo: o City venceu o United por 6 a 1 no primeiro turno da Premier League, em Old Trafford. Ambos eram 4-4-2s. Qual é a importância dos dois líderes da Premier League usarem o 4-4-2, já que vivemos na era em que o domínio é do 4-2-3-1?
MC – Eu acho que é mais complexo que isso. Eles eram, de fato, aquelas formações, mas o esquema do City não está muito longe do 4-2-3-1, como você observa que existem dois jogadores recuados (volantes) e dois outros que são ofensivos nos flancos. Naquele jogo, também, Agüero aparecia por trás de Balotelli. Novamente, o United tinha Rooney atuando por trás de Welbeck, então, os sistemas eram bem similares e não tão distantes do 4-2-3-1. Eu acho que o que é importante de se lembrar é que, sem a bola, eles (os times) pareciam a mesma coisa. Com isso dito, a Inglaterra (seleção) é ainda um pouco atrasada em termos táticos – times ingleses tendem a evoluir em todos os quesitos do jogo.

FS – E qual foi o jogo mais fascinante que você já viu, do ponto de vista tático?
MC – Ótima pergunta. Talvez Brasil x Chile em 2010. Dois times completamente diferentes (contra-ataque x marcação pressão), dois tipos muito específicos de disposições e sistemas, e o jogo todo girou em volta do fato de o zagueiro do lado direito do Chile cobrir o espaço na sua região para marcar Robinho ou sair para marcá-lo mais à frente. Foi ótimo.

FS – O Barcelona é o time mais fascinante para se analisar taticamente, considerando pelo menos os últimos 15 anos?
MC – Sim, provavelmente. Um tremendo (time) ‘híbrido’ por ter um jeito de jogar, mas que muda esse próprio jeito semana a semana, ou quase isso. A atenção de Guardiola ao mais simples detalhe é fantástica e a sua insistência em fazer (o time) evoluir temporada a temporada tem sido fascinante – menos sua queda ao final, mas assim mesmo ele foi crucial para manter o Barça no topo por três anos. Até mesmo em sua primeira temporada ele mudava Messi e Eto’o de posição e enganava seus adversários.

FS – Esta é uma questão cultural: você acha que técnicos sul-americanos participam mais de jogos, mudando a equipe taticamente e fazendo substituições, do que os europeus?
MC – Honestamente, não assisto muito futebol sul-americano, então fica difícil dizer. Pode acontecer isso mesmo, embora seja muito difícil comparar aos europeus já que as diferenças entre eles são tão grandes.

FS – Para finalizar: o que você pode me dizer sobre ‘El Loco’ Bielsa, que era técnico do Chile na Copa de 2010 e, hoje, comanda o Bilbao?
MC – Tem algumas coisas no site sobre ele! Eu não consigo dizer algo muito novo sobre ele, não. Ele é uma pessoa fascinante e um ótimo ‘ideólogo’ (foi o termo usado por Cox). Eu acho que ele é um pouco teórico demais em alguns momentos para se sair bem na sua carreira, embora que no Bilbao ele tenha mostrado flexibilidade e mudou seu estilo tático para confortar seus jogadores. Eu espero que ele continue como está: criando alguma sempre com aquele seu lado faminto, bom e jovem de ser, sem contar que é fantástico de se escrever sobre.

Originalmente, foram dezessete perguntas enviadas. Cox respondeu oito – e me satisfez, por suas opiniões serem tão extremamente significativas. Seu conhecimento do aspecto tático do jogo é assombroso – o que o torna tão qualificado e com um estilo único, ainda que não seja o único que utilize a ‘teoria’ tática do jogo nos textos.

Zonal Marking – http://www.zonalmarking.net

Por: Felipe Saturnino

One Comment to “Entrevista: Michael Cox”

  1. Mto bacana, devemos reconhecer – embora tatica seja algo q nao me empolgue, particularmente. Parabens pela entrevista!

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