Posts tagged ‘Análise’

20/12/2012

Matar ou morrer

O sorteio para as oitavas da Champions é por si só um espetáculo.

Quando então ficou decretado que Real e United se cruzariam numa das partidas, sim, tudo tornou-se mais espetacular ainda. Eles jogarão por um torneio europeu após 9 anos, já que o último confronto ocorreu em 2003, também pela Liga, mas na ocasião o embate era pelas quartas. O tempo é distante, pois a equipe inglesa ainda tinha David Beckham e Ronaldo disputava sua primeira temporada pelos merengues. A classificação dos maiores vencedores da Europa veio após um revés por 4 a 3 em Old Trafford.

E o jogo que está por vir promete tanto quanto qualquer outro gigantesco confronto que já presenciamos antes. Por mais que a equipe de José Mourinho esteja em crise forte – definitivamente a maior que já teve por lá, uma das maiores da sua carreira – e o United lidere a Premier League – é só perguntar a Ferguson se ele gostaria de pegar de cara no mata-mata a equipe eneacampeã continental. Ninguém quer. Mas foi mesmo o próprio Real Madrid que se colocou em tanto perigo, além obviamente do tremendo Borussia Dortmund, que apesar de estar 12 pontos atrás do líder Bayern na Bundesliga, levou o grupo D da Champions League com mão forte, não perdendo jogo algum para a esquadra de Mourinho. E aí os espanhóis se colocaram no pote 2.

Se fossem tempos atrás, aliás, o Madrid decerto seria favorito. E também o seria por jogar a primeira partida em casa, onde na temporada passada padeceu apenas por uma vez, na derrota para o arquirrival catalão nos 3 a 1 de 10 de dezembro – a eliminação da UCL, afinal, veio nos pênaltis e não com revés no tempo normal. O Bernabeu não é uma tão grande arma dessa vez para os blancos. Mas a equipe de Mou tem nomes estratosféricos que assustam a todos, até mesmo aos líderes do nacional inglês. A questão pontual é que, se o Madrid de fato se acertar, ao menos para um jogo, pode derrotar o United pelo menos na primeira metade do confronto. Em Old Trafford, o Manchester virá babando e será favorito.
Ainda que conturbado o ambiente madridista, com Mou e Florentino Pérez se enfrentando internamente, e com o apoio dos jogadores ao técnico perdendo força, tanto pelas declarações que Mou concede à imprensa espanhola como pelo que deve fazer dentro de seu grupo, o Real Madrid tem algumas chances de jogar muito e derrotar o time de Sir Alex. Mas é delicado pensar como jogar tanto numa única partida apenas após uma temporada até agora excepcionalmente decepcionante. Talvez Cristiano Ronaldo possa se inspirar em Trafford. Ou talvez possa selar o destino madridista para o inferno. Pois, após algum tempo, a equipe não apresenta perspectiva para a temporada, e se for eliminada nessa etapa da Liga, deve muito bem rastejar por uma vaga na Champions da temporada seguinte, e só – o Madrid está 13 pontos atrás do Barça, e isso deixa quase impossível o bicampeonato de La Liga.

Passando ao lado vermelho, protagonismo do confronto pode ser para a dupla Wayne Rooney-van Persie, que tem funcionado esplendorosamente. Com o holandês em forma, a preocupação de Mou em marcá-lo será ainda maior do que o normal, além do mais para uma defesa tão insegura como se apresenta a do Real Madrid. Para Cristiano Ronaldo, é o reencontro com a equipe que lhe consagrou, lhe deu as maiores vitórias de sua carreira e o maior sucesso como futebolista com a conquista de 2008 do prêmio de melhor do mundo.

Aliás, certamente para os madridistas o jogo vale mais. Por mais que Mourinho não continue no comando da equipe para a temporada 2013/14, o que vale é a chance de seu terceiro título da Liga, e também a dignidade para uma temporada até agora que representa apenas o perfeito fracasso. Para o Real Madrid, muito mais do que para o United, o jogo vale a vida, o vigor da temporada, ainda que uma eliminação da Champions seja muito doída para qualquer clube – e isso para o Manchester afetaria significativamente a confiança do time. Se qualquer um dos times pode morrer nessa oitava, morrer tem um significado altamente mais comprometedor para os merengues. Afinal, do jeito que as coisas estão pelo lado do reino de Madrid, nem mesmo se sabe se Mou continua até o embate com os Devils, que ocorrerá em fevereiro.

Mas por si só esse jogo é um espetáculo.

Mou – logo após ver o resultado do sorteio

16/12/2012

Entrou, aplicou e ganhou

Quando Tite mandou a campo Jorge Henrique, substituindo Douglas, o Corinthians prometia estar atento a todos os movimentos do Chelsea. O mais importante para os corintianos, afinal, além de jogar uma partida inspirada, era mesmo deter os avanços dos Blues pelos lados do campo, principalmente pelo lado direito, ou seja, se aplicar taticamente.

E a lateral-direita foi protegida, tal qual a esquerda, tal como o miolo de zaga e a parte dos volantes. O Corinthians foi impecável. Mesmo não tendo sido mais perigoso no primeiro tempo, porque o Chelsea teve a chance com Cahill num lance de escanteio em que Cássio fez um quase milagre, e depois com Moses, em que Cássio fez uma das mais brilhantes defesas de sua carreira – certamente uma mais importantes. Em um jogo-espelho, com dois 4-2-3-1s, Emerson iniciou para atacar o lado destro do Chelsea, em que Ivanovic atuava. Jorge Henrique, enfim, entrava para ser um secretário particular de Alessandro, auxiliando-o no combate a Hazard e marcando Cole.
Paulinho teve de se sacrificar como um jogador de sua magnitude para seu time teria de fazer. Doou-se pelo conjunto, marcando e combatendo Ramires no duelo mais direto e interessante do jogo, dada a qualidade de ambos. Pela mesma posição, o confronto único por uma vaga na seleção, isto tudo era realmente diferente para os dois. Ainda que Ramires seja tecnicamente superior, Paulinho tem se superado e atingiu tal nível notável como jogador da posição, não o dando por acaso uma vaga com Mano na seleção. A surpresa maior foi reparar o quão agressivo e imponente o Corinthians mostrou-se dentro do jogo. Não foi um show, mas foi uma performance excelente. O time de Tite conseguiu se tornar ainda melhor que o mesmo campeão da Libertadores.

O Chelsea, afinal, apesar de não ser fantástico, é um time de respeito, de nome. Possui opções, variações, qualidade. E aos montes. Faltou organização, e bem como o The Sun descreveu, é o fim do mundo, ao menos para Benítez, ter perdido o jogo. A equipe azul de Londres foi pressionada por um Corinthians dono de si e dono do jogo. Danilo fez exaustivamente um trabalho de recuperação, trabalhando sobre Lampard para impedir o Chelsea de começar o jogo com algum conforto desde lá de trás. Guerrero, não só pelo gol chorado, mas pelo jogo em sua plenitude, foi fundamental. Os corintianos conseguiam então fazer jogo, com alguma dificuldade – uma dificuldade natural, há de se falar, dado o adversário -, mas as chances criadas não foram por qualquer coisa. No primeiro tempo, Emerson teve duas em seus pés. Na primeira, ao invés de passar a Guerrero, tentou passar por David Luiz, que protegeu com o corpo de forma simples; a segunda foi com um erro pífio de Gary Cahill, aos 28 minutos da primeira etapa, em que o corintiano chutou a bola longe da meta de Cech.

Hazard, então, foi travado pela direita. Alessandro foi destemido, pela direita, também – mesmo sem apoiar efetivamente. Ralf foi pego por Lampard em um lance. Ralf marcou Lampard. Lampard não conseguiu jogar, e o Chelsea aproximava-se de Cássio por talento, não por estratégia ou plano de jogo. Era a qualidade que tantos diziam que eles tinham.

O panorama do jogo mudou quando, no segundo tempo, o Corinthians passou a pressionar por volume, que o Chelsea, pelo caminho que tomava, teria com que lidar. A posse era corintiana, mas a força de ataque literalmente pertenceu aos alvinegros. Paulinho, por mais que mais tímido que na Libertadores, infiltrou-se para dar o passe a Danilo que finalizou para Cahill tirar e, na sobra, Guerrero confirmar o tento. Com o pressing voraz a que impôs o Chelsea, o Corinthians sabia que o gol estava mais perto. Esse sempre foi um dos maiores trunfos do time de Tite. Ter segurança que a chave do jogo está nas próprias mãos. Mesmo que Paulinho, a arma da Liberta, não estivesse a fim de marcar o gol redentor dos corintianos, pois ajustava-se ao desafio de acompanhar Ramires, a chave estava na cabeçada de Guerrero, que entrou para a história fazendo história.

02/11/2012

O que mais um Ballon D’Or significaria para Messi?

Lionel Messi está à evidência do seu quarto título de melhor futebolista do planeta. O azulgrana detentor da camisa 10, absoluto e absurdo no trono de rei do maior esporte que há, parece querer perpetuar seu monarcado para tornar-se definitivamente uma divindade, mais do que “somente” um gênio que é.
E sobre isso, creio eu, não existem muitas dúvidas. Messi continua a ser o melhor, Ronaldo o segundo – e nisso há uma mera grande vantagem. Iniesta ou Xavi podem ser terceiros – para a FIFA, pode até pintar Pirlo ou Falcao como um terceiro, mas esta seria uma autêntica agradável surpresa por parte da mesma.

Entretanto, é de se reparar que o Barcelona não vivenciou seu melhor momento em três anos com Josep Guardiola, nem ao menos de longe. Na temporada passada, a equipe padeceu diante do Real na Catalunha na liga espanhola, apesar de ter vencido na ida em Bernabeu. O time que era de Pep na ocasião derrotou o Madrid por 3 a 1, desintegrando parcialmente o Real de Mou – que voltou a demonstrar vida quando goleou o Sevilla em Sevilha, logo no entrave seguinte de La Liga. Foi eliminado pelo Chelsea em uma drmática semifinal, em que Messi cometeu o seu único erro no ano: o penal desperdiçado diante do enorme tcheco Cech. Ainda assim, conseguiram vencer a Copa do Rei sobre um Bilbao forte com Bielsa. E foram estas ocasiões de baixa que mostraram o quão grande foi (é) Messi, marcador de 82 gols na temporada 11/12; o Lio que, enfim, jogou num de seus melhores patamares pela seleção albiceleste. O Messi que comanda o time de Sabella, numa espécie de 4-2-3-1 que o deixa livre para ditar ritmo, variar e inverter e ligar os wingers que aceleram o jogo (Di María e Aguero) verticalmente. A fórmula mágica que funcionou no seu melhor ano, indubitavelmente, pela Argentina, e que deu a Leo gols fantásticos como os contra o Brasil (nos 4 a 3 de New Jersey, com a magistral pintura do último tento), gols precursores, como os do hat-trick contra a Suíça (3 a 1, o primeiro jogo em que marcou três com a camisa da Argentina), e gols demonstrativos do quanto Messi conseguiu crescer para o cenário nacional, nos jogos contra Uruguai e Chile, os últimos dois confrontos pelas eliminatórias. E tudo isso ocorreu como promessa – o termo mais válido aqui seria, porém, aviso: quando venceu sua terceira Bola de Ouro, Lionel disse que queria ser maior, mais superlativo e dominante no que envolve o contexto tão delicado da seleção argentina. E isso aconteceu em janeiro. Pouco menos de 10 meses depois, Messi venceu obstáculos e se consolidou definitivamente como o maestro da seleção – talvez não tão grande como Dieguito na popularidade, mas, decerto, aproximando-se de El Pibe na técnica de seu mágico e fenomenal estilo de jogo.

Messi merece, e tem de ganhar mais uma Bola de Ouro pelo que faz por suas equipes, pelos gols de cobertura que marca, pelas fintas sucintas, precisas e minuciosamente calculadas com que rege o jogo na Catalunha, e pela figura que é – apesar disso ser posto seguramente e acertadamente em segundo plano para decidir o prêmio de melhor do mundo. Mas o quão isso verdadeiramente importante lhe é?

Messi, o único tricampeão do prêmio em toda a história, já escreveu seu nome para o infinito sempre de todo o âmbito futebolístico. E isso o coloca entre os maiores da história, talvez o maior do século XXI, de tal forma que nos parece incontestável essa tese. Refutá-la é uma tarefa árdua, e dificilmente alguém conseguirá desbancar todo o envoltório que há ao redor de Messi por causa de seus exacerbados méritos no seu período, tanto quanto breve – que são oito anos – em atividade. Mais um título da FIFA para o argentino significa credenciá-lo a um reinado jamais antes visto, ou talvez até já presenciado, mas há muito. O que se iniciará seguidamente, e novamente, é bem verdade, será sua posição com relação a Pelé. E a posição de melhor da história é sempre digna de muita discussão, e obviamente de um invariável cuidado nas opiniões.
Se o mais significativo é colocar Messi em algum lugar na história ao final de sua brilhante carreira, esperaremos. Mas, agora, já Messi parece estar completamente apto a assumir o posto de melhor da história do jogo. O quarto título de melhor do planeta, que lhe é evidente, mais que apenas e meramente esperado, lhe colocará num estágio numérico, ao menos numérico, sobre geniais Ronaldo e Zidane.

E de fato isso significa muito para La Pulga. E significa por ser mais próximo e comparável à sua realidade que Puskas, Pelé, Cruyff e Maradona são. O que se torna corriqueiro é a constante conexão, que totalmente válida é, entre tempos distintos do futebol que não permitem uma análise coerente, e justa. Mas seria injusto dizer que Messi é o melhor de todos?

O mais coerente e menos assustador, pelo menos agora, é dizê-lo como um excepcional argentino e blaugrana, que está entre os 15 maiores jogadores da história do esporte, e que é o maior deste século. Porém, será evidente que, no gran finale da sua carreira, necessário se tornará falar nele como o maior de todos ou não.

E seria justo considerá-lo o melhor de todos apenas ao final de seu tempo como futebolista? Bem, aí o fim do monarca não representaria o fim da sua monarquia, porém, simplesmente um período de pausa, pois, certamente, Messi já estaria eternizado, seria infinito: um Deus e não só gênio mortal. Mas bem melhor seria poder considerá-lo como o melhor no seu período de atividade, pois assim poderia fruir de seu futebol como o melhor da história.

Messi – o melhor de todos os tempos? No fim, (talvez) saberemos

Por: Felipe Saturnino

08/09/2012

Pipocas?

A sensação que Neymar deve ter sentido em campo hoje, na vitória tupiniquim sobre os sul-africanos, foi certamente uma das mais desagradáveis de sua curta e promissora carreira como futebolista. O que Mano sentiu lhe é mais próximo e comum. Até mesmo mais sensato e compreensível.

À torcida brasileira – paulista (paulistana) -, vaiar o técnico ex-Grêmio e Corinthians é algo mais óbvio. Os problemas todos, sejam de vertentes táticas ou técnicas na seleção, decorrem ou pressupõe-se que decorrem partindo da natureza do treinador. Mano, que mantém a sistemática do 4-2-3-1 desde o seu início na seleção em agosto de 2010, naquele amistoso diante dos EUA, pouco tentou modificar a natureza tática do esquema; uma mudança significativa foi na característica do miolo de meio-de-campo: na Copa América, deixou a versatilidade e agilidade de Leiva e Ramires para, um ano depois, nos Jogos Olímpicos, usar um sistema menos técnico, mais sólido e pragmático nesse mesmo setor, mas agora com os volantes Rômulo e Sandro.

A liga que Mano ainda não deu na seleção, hoje, porém, está posta numa perspectiva menos plena por motivos óbvios, de importância ainda mensurável mas muito grande.

Em uma coletiva morna, sem sal, como é de seu feitio, Menezes abriu a caixa de argumentações duvidosas e, de certo modo, pífias: quando perguntado sobre o porquê da escolha de substituição de Neymar em instantes finais do entrave diante da África do Sul, no Morumbi, ele pautou de forma enfática o aspecto da condição física da joia do futebol brasileiro.

E Neymar deixou o jogo aos 44 do segundo tempo.

O resultado de vitória brasileira – que teve Oscar na meia principal novamente – foi decepcionante pelo que foi e o que não foi, e não somente pelo que não foi. Foi ruim. Espetacularmente ruim. E poderia ter sido bom. Ainda que tenha sido contra uma seleção ultra coadjuvante no cenário continental. Pois foi o que ocorreu.

Hulk, o herói de MM, marcou nos dois últimos jogos com a seleção, ambos em momentos críticos; o primeiro tento, contra o México em Wembley, é algo diferente deste aqui: enquanto aquele dava um ar de redenção a Mano por alguns segundos e “mantinha” viva a esperança do ouro inédito, este aqui representa a salvação do absoluto abismo cósmico em que ele continua a tentar se jogar.

As pipocas amarelas, que não referem-se a todos os jogadores, não são verdadeiras; são frustrações dos torcedores, e provém da mais alta qualidade. Neymar, o pipoqueiro do dia, foi cutucado por um Mano muito controverso nas declarações do pós-jogo, e também pela torcida colorida em verde e amarelo que o vaiou. Como dizia um desses por aí, as vaias são os aplausos de quem não gostou.

Neymar, se não é pipoca – muito longe disso -, é o líder técnico da seleção no road de Mano Menezes. O caminho é mudar. Mudar o sistema, os objetos do sistema, e mudar também o local do jogo. Por isso o escolhido da vez da CBF é o Recife.

E a Mano: credenciar Neymar às vaias é injusto, mas não deve ser tanta pressão comparado ao que ele já sentiu. Neymar não pipoca. O problema é menos simples e mais amplo. É a seleção que MM não consegue dar jeito.

É o sufoco no Morumbi.
É a pressão do país que é sede do Mundial.
É o técnico que cutuca o ídolo teen.
É o time que nos faz pensar em Dunga.

É a pipoca que estoura; a situação é crítica.

Por: Felipe Saturnino

13/08/2012

Pressão

O Brasil decepcionou novamente numa decisão de Jogos Olímpicos no torneio masculino de futebol. A medalha de prata é longe de ser vexame, mas também não agrada os que ainda torcem e vibram por essa, e muito menos o chefe Marin. No caso, o emprego de Mano (ainda) está em perigo.

A pressão que agora está sobre Mano é a mais esperada dos últimos tempos. O fracasso na Olimpíada a traria consigo, simultaneamente. E as apresentações, se resta-nos contemplá-las, não é significativo no geral – mesmo com a média de três gols por partida até a final, a equipe não aparentava segurança em todo o decorrer da competição.

O fruto da segurança é um misto do trabalho contínuo, que existe fora do campo, mas, principalmente, nos momentos de pressão com que os jogadores lidam. A juventude, com sua exuberância maior e a sua grande beldade representadas na jogada de Neymar no último gol diante da Bielorrússia, com a conclusão vinda de Oscar, não soube adquirir a proficiência para se manter num jogo com pressão. E era uma final, no fim de tudo…

Para se reparar: uma partida em que o Brasil esteve abaixo no placar foi diante da Bielorrússia. 1×0, com gol de um brasileiro – Bardini Bressan -, num cabeceio após erro defensivo. Foi o menor apesar do final. Decerto o Brasil teve dificuldades com o Egito, um jogo com pressão, de estreia, que souberam dar conta de vencer, e, claro, com Honduras – o jogo mais delicado da jornada brasileira até a prata.
Mas na decisão de Wembley, no domingo, certamente aquele que é considerado como um dos três melhores zagueiros do mundo – quem sabe até mesmo o melhor -, Thiago Silva, errou bisonhamente e quase deu o tento para o México, após ter se confundido numa saída de bola – uma saída de bola que comprometeu o Brasil no jogo por completo. A experiência não confortou tanto quanto poderia – apesar das atuações regulares de Silva. A pressão, forte pressão, com que os brasileiros, abaixo do placar com o time do calibre mexicano pela primeira vez na competição, tiveram de lidar, existia desde o momento em que Rafael errara no campo brasileiro: gol de Peralta. E o Brasil não se achou em campo.

Neymar e Oscar, fundamentais durante o torneio. Pouco produtivos ao seu final. Quando o santista arrancou pra dentro e chutou uma bola perigosa no final do primeiro tempo – algo como 30 minutos e mais um pouco, quase 40 -, e iniciou o segundo com vontade, as perspectivas podiam mudar. Hulk também não desapontava, e terminou sua participação confirmando uma vaguinha na equipe de Mano, com gol aos 46 da segunda metade de peleja. Oscar foi o de menos na linha de três, tão decisiva na conta final de um 4-2-3-1. Afinal, ele é o cara do centro, que centraliza as opções de variação de ritmo e suporte ao avante central e os “pontas” – pois, de fato, Sandro e Rômulo não são de apoiar o jogo na frente.

O saldo geral é de decepção. A pouca experiência com a pressão, que na final já existia com menos de 30 segundos pela desvantagem no marcador, talvez tenha derivado mais um revés em decisão olímpicas para os brasileirinhos. Porém, a equipe nunca foi de todo confiável, e por isso falta a segurança que um time vencedor precisa ter. É claro que ainda assim poderia ter abocanhado o ouro ineditamente. Todavia, sabemos que, quando o momento do ouro chegar, será com uma equipe mais completa do que esta. Afinal, do que falamos de falta de segurança que é um problema da seleção olímpica, o problema é da seleção principal, também. A resposta que Mano, em situação difícil, pode dar-nos, é criando um time seguro, jovem, mas ao mesmo tempo maduro, pois existe pouco mais de 1 ano para o Mundial em nossas terras e lá, sim, é o inferno em pressão.

Por: Felipe Saturnino

19/07/2012

Ai, Juvenal!

O São Paulo amarga o inferno astral que vive, e que nada parece ter de passageiro ou esporádico, não essencialmente por causa de JJ no comando da equipe, mas, sim, por causa das escolhas que Juvenal preferiu dar ao seu mandato no clube.

Juvenal ‘endeusou’ o Sampa, tornou-o único, ímpar, diferente. Soberano. Fabuloso – na verdade, o nickname Fabuloso é de LF, mas, de fato, as conquistas vívidas de Juvêncio no triênio 06/07/08 são isso e mais um pouco. São formidáveis. E JJ não errou nesse tempo ao manter Muricy – porém, sabíamos que Muriçoca nunca fora tão íntimo do presidente tricolor nesse período que os do Morumbi acumularam um dos feitos mais incríveis que já se viu em toda a história do futebol brasileiro, quiçá o mais. Ele apostou no atual técnico santista, e assumiu um risco. Confiara nele, com absoluta razão. Confiara pois, anteriormente, Muricy cumprira as expectativas. Superou-as ao final, afinal, por mais que não tenha vencido a Libertadores – quase o fazia, caso não existisse o Inter em 2006-, logrou êxito no tricampeonato – e quanto. E acabou demitido em 2009 após mais uma eliminação para um brasileño na Liberta – o Cruzeiro venceu a ida por 2 a 1 no Mineirão, e aqui também obteve vitória como marcador final, por 2 a 0.

De lá pra cá, muitas coisas mudaram.

Certamente, o São Paulo nunca mais conseguiu ser o mesmo. Seja pelas escolhas que JJ fez, no período Muricy e pós-Muricy, seja pela capacidade superestimada de times que o São Paulo formou e que não vingaram, seja por evidenciarem-se as superioridades doutros paulistas, como Corinthians e Palmeiras – talvez o Santos também, pelo bicampeonato do Paulistão, apesar desse não ser lá tão bem valorizado por aqui, e pela recentemente conquista Copa Libertadores -, que no tempo em que tudo era dourado lá para os grandes – ou ex-grandes – tricolores paulistanos, não obtinham tanto sucesso assim nas competições.

Em 2009, quando Gomes assumiu, ele o fez com um futuro promissor, otimista. O time era bom, mesmo tendo padecido ao Goiás na penúltima rodada do Brasileirão, e teve no seu desfecho de Brasileirão um terceiro lugar – válido para o momento – e foi à Libertadores. A equipe que (ainda) continha nomes como Hernanes, Jean, Washington, Jorge Wágner – todos esses, aliás, ex-jogadores do Tricolor, com um dele, o terceiro, já aposentado -, e claro, Rogério Ceni, naquele momento, fortaleceu-se para 2010. Todavia, o panorama, apesar de modificado após uma vitória muito bem construída no agregado com a equipe eliminando o Cruzeiro nas quartas da Libertadores por dois 2 a 0, voltou ao comum após uma derrota para o Inter nas semifinais. O São Paulo certamente não voltaria para a Libertadores naquele ano. E essa sentença não tardou.

Assim como no ano seguinte, que também eles (tricolores) não voltariam à maior competição sulamericana da… bem, da América do Sul, o São Paulo passaria por uma série de mudanças, num período de transição que Juvenal não soube manusear.

Parte-se de 2010, com a sucessão no comando de Gomes: Sergio Baresi (Juvenal esnobou todos numa entrevista em que pusera a fogo o tamanho do salário que pagava a Sergio).
Na ocasião, o time não engrenou. Carpegiani foi o escolhido.

Outro erro. JJ deixou a transição delicadíssima nas mãos de Baresi, que saiu da equipe após quatro meses de trabalho – parece pouco, mas foi um terço de trabalho do ano exercido pelo antes treinador dos juniores. Lucas, entretanto, foi lançado as ares do Pompeu de Toledo – hoje, sua fama espalha-se e atrai até os olhares de Sir Ferguson, num tema paralelo, mas extremamente recorrente aos dos problemas que são-paulinos vivenciam.

E Carpegiani, bem, foi contratado em outubro, com algum tempo para o fim da temporada, com alguma ideia para o ano seguinte. E nada para 2011, no final das contas – o Avaí derrotou o São Paulo, o que ao final da temporada contribuíra para a insanidade de alguns, pois os catarinenses foram rebaixados. A cartada triunfal e impiedosa de Mr. Juvenal foi escolher Leão para se apoiar. Sem tampão, pois decerto houvera a repercussão anterior sobre uma possível – talvez até provável – contratação de técnico temporária.

A penúltima cartada, porém, fora Adilson. E essa era uma boa – para a situação, Batista parecia ter talento, já que havia obtido algumas experiências significativas no comando do Cruzeiro, com o vice da Liberta em 2009. Ele sucumbiu aos 3 a 0 diante do Atlético Goianiense.

O que falta ao São Paulo também é um presidente que assuma com total segurança riscos que antes assumia. Com Muricy, somente com ele, é bem verdade. A administração JJ, apesar de seus títulos, e da alcunha ‘Soberano’, e também do própria elevação de nível do tricolor, devidamente atribuída por JJ, precisa de seriedade.

O time, é bem verdade, precisa de raça.

E isso é tarefa de Ney Franco, o novo escolhido de Juvenal. Franco – e não Fraco – já cambiou o panorama, taticamente, optando por um 4-3-1-2, que claramente sofre pela falta de Lucas. A opção da meia principal, que concedida ao ex-Shaktar Jadson foi, aparenta desapontar a todos também pela falta de atuações ríspidas e contundentes.

Quanto a Juvenal, bem, tem que parar de ferir os sentimentos engrandecidos dos são-paulinos. Isso só piora a situação.

Sem esquecer de falar que, no último ano, Juvêncio feriu mesmo o estatuto tricolor e modificou o mesmo. Para reeleger-se.
Talvez ali o mandato recomeçasse para Juvenal. O tempo de conquistas são-paulinas, no entanto, está longe de fazer o mesmo.

Por: Felipe Saturnino

10/07/2012

As crises, francesa e holandesa – que não são econômicas

Blanc se demitiu após decepcionante campanha na Euro

Os ‘bleus’ voltaram ao que tinham escapado recentemente. A crise. Não uma crise qualquer, mas a crise. Uma crise que já ocorrera pela terra do ‘champagne’, e que todos os franceses tentaram fugir. Parece que não conseguiram.

Culpa de Blanc!
Culpa de Blanc.
Culpa de Blanc?

Laurent deu padrão aos franceses que em 2010 fizeram uma campanha pífia no Mundial da África do Sul. Deu padrão, aliás, deu-lhes o modelo padrão – não, não quero fazer referência ao aparente sucesso da teoria do Modelo Padrão e nem aos físicos que possivelmente encontraram o ‘bóson de Higgs’ -, pois utilizou um 4-2-3-1 sólido. Um 4-2-3-1 que era sólido. Pois, ao que terminou seu mandato, apenas era – o passado nos é compreensível, mas nem de todo elogiável, como se poderá perceber no parágrafo que segue.
Na Euro deste ano, um descaso tremendo na primeira fase dificultou horrores a vida dos francos marcando um confronto de mata-mata diante dos espanhóis – logo eles – de Del Bosque nas quartas. Não deu outra. A vitória espanhola com doblete de Xabi Alonso simplesmente atestou o fracasso francês na 1ª fase.

A França era notoriamente uma das mais fortes ao chegar no campeonato europeu de seleções. O time que fortaleceu-se com o posicionamento de Benzema como avante, o mesmo Karim que teve uma ótima temporada no Madrid de Mou, e com Malouda e Ribéry como extremos – wingers -, Samir Nasri encarregava-se de mediar a linha segunda do meio-de-campo. O esquema era sacado, por se tratar de uma receita que as melhores seleções se utilizarem. Um 4-2-3-1, simplesmente mais do que recomendado.
Mas os de Blanc foram incompetentes. Fundamentalmente contra os suecos, naquela ocasião que foi datada por um golaço de Ibrahimovic.

Encrencados também estão os holandeses – sim, os mesmos vice-campeões mundiais em 2010. Pois nem parecem. Os ‘baixos’, neerlandeses são os que vão a uma crise em decorrência de motivos muito distintos dos dos franceses. Ali, a crise antes não existira. Existe, agora, o desgaste de Bert van Marwjik, que é natural, justo e necessário, constatando a fidelidade da regra, mesmo que seja eficaz o time de que se fala.
Bert sai por atrito, por péssimo dinamismo de seu esquadrão na Euro, e consolida uma transição, apesar de que não aparente: o pragmatismo holandês agora pode ser antipatia.
Outro colaborador notável do 4-2-3-1, Marwijk se utilizava de uma recomendação tática que explorava não apenas o ‘modismo’ do esquema, mas, principalmente, a adequação de seus jogadores ao mesmo. Robben e Kuyt encaixavam-se como wingers – um tanto quanto bem diferentes sobre os trabalhos desses dentro do campo, é bem verdade – de forma eficaz; Sneijder, o ótimo 10, que em 2010 foi um dos melhores – quem dirá o melhor – da campanha da Inter de Mou na Champions League, fluía o jogo como um centromédio de técnica magnífica. Van Persie completava a linha média e o ataque – pois, afinal, Robin era o único atacante verdadeiro daquele esquema. Pragmático, mas na Copa eliminou o Brasil, que tinha vantagem de um tento no jogo da Cidade do Cabo.

Marwjik não tinha o que fazer – aliás, tinha, pois sempre alguém tem, mas o pragmatismo, ora ou outra, sucumbe às necessidades supremas, senão a necessidade da vitória, no que os holandeses falharam em 2010 e há pouco, na Eurocopa da Polônia e da Ucrânia. O desgaste os fez falhar. Ninguém de tão unidimensional sobrevive a isso – a não ser alguém que encante, como a Espanha, ou alguém que se proponha a vencer continuamente.

Louis van Gaal e Didier Deschamps são, respectivamente, os novos técnicos das duas últimas vice-campeãs mundiais, Holanda (2010) e França (2006).

Deschamps procura enfim tomar as rédeas de um grupo de selecionados indisciplinados e displicentes, na medida do que vai se tornar possível no que avance o seu trabalho.
Louis van Gaal, que certamente não procura trazer de volta o charmoso futebol para a Holanda, como ocorreu há algum mais do que apenas pouco tempo para os dos Países Baixos, recorrerá a uma transição conservadora de estilo: o pragmatismo, que esperamos ser ainda um não-antipático pragmatismo. Tal como foi com Marwjik – apesar de que os times de van Gaal nunca terem sido exatamente uma certeza de antipatia, mas sim de disciplina.

Blanc, como levantado foi acima, não foi culpado na França; pelo menos não é o meu. Apesar de ainda não ter conseguido trazer ordem aos franceses, realizou o básico, e carregou o trabalho até quando a corda duma aparente união do grupo de jogadores rompeu-se. Aí, simplesmente pressionou o ‘botão do dane-se’ e partiu para a demissão. Mais polêmicas, porém, para Deschamps resolver.

Por: Felipe Saturnino

30/04/2012

O primeiro hat trick de Neymar num clássico. Azar do São Paulo

A equipe de Leão perseverou – não por inteiro no embate: o golpe de misericórdia competiu a Neymar, assim como os outros três tentos do visitante no Cícero Pompeu. Mais uma atuação ‘world class’ da figura mor do futebol nacional na contemporaneidade.

Interessantemente, o técnico do maior time das três cores de São Paulo pontuou Cícero na titularidade da única posição restante do meio-de-campo, e o preferiu a Fernandinho. A opção, como todas, apresentava um ponto e um contraponto, muito objetivos: com sua entrada, a equipe acumulava toque mais qualificado, e tocaria horizontalmente a bola – diferentemente de Fernandinho, que avançaria com sua velocidade pelo campo, distribuindo menos o jogo. O canhoto camisa 16 fazia do São Paulo a semelhança do Santos: dois 4-3-1-2s, ou até mesmo dois 4-2-3-1s tortos, falsos – atente para a ilustração.

Cícero foi importante para a dinâmica meio-campista do São Paulo apesar da derrota e fez do time um 4-3-1-2/4-2-3-1

E não, os motivos da derrota são-paulina foram os menos táticos possíveis. Foi, pois, o talento do garoto de seus 20 anos, número 11 dos praianos, que decretou a derrota.

Aliás, isto é uma meia verdade: Paulo Miranda auxiliou os visitantes na empreitada. E muito. Na primeira bola defensiva do jogo, um erro total e confusão trouxeram o primeiro golpe à cara do time são-paulino: penal que foi convertido com segurança por Neymar – e será que ele pensou em Lio e Cristiano ao bater este? O zagueiro, que já não é tão confiável quanto parece, contrastando com o bem mais qualificado e seguro Rodolpho, errou mais uma vez, no tento seguinte. Contudo, desta vez, Piris não concedeu a cobertura que tanto Neymar necessita para ser contido. O lateral paraguaio, que teve no jogo um inferno a ser resolvido – que não foi -, estava na outra ponta de jogo, lado esquerdo, e apenas olhou Ganso que deu um belo passe para Neymar marcar o seu. Não deu outra.

Por tudo, o São Paulo, de forma prática, começou o seu desafio de vencer o Santos pela primeira vez neste formato de Paulistão – já que fora eliminado nas duas edições anteriores pelos alvinegros praianos, e em 2009 sucumbiram ao Corithians – perdendo. O penal de Neymar foi muito, muito cedo. Um erro. Grave.

Mas Neymar também era fatal. Mais do que o usual.

Os tricolores permaneceram na pressão, perseveraram o possível, e ainda marcaram com Willian José na segunda etapa, possuindo tempo para uma reação – no mínimo uns 20 minutos para tal feito. Casemiro apareceu, o time tocou mais a bola, rodou mais o jogo. Lucas partiu para as bolas – como é do feitio. Neste ponto, Leão já havia modificado a estrutura tática: de 4-3-1-2 – ou um ‘fake’ 4-2-3-1 – para lídimo 4-2-3-1. Jadson não está confiante. Ainda não. A opção por Fernandinho foi aceitável, e aceita.

E Dênis aceitou Neymar.

Na bola traiçoeira, na mínima deixada de espaço, o santista percebeu e arrematou: Dênis falhou – frango na certa. Deleite dos santistas – não era para menos. Neymar conseguia um feito inédito: seu primeiro hat-trick na história de um clássico. E 102 gols com a camisa do Santos.

E Piris levantou Neymar.

Mas o lance foi ‘cômico’: Neymar provoca, faz o drible por fazê-lo, sem traçar objetividade, e Piris faz falta – porém, ainda toca na bola. Neymar foi rodado em campo. Mas decerto ficou satisfeito com mais uma atuação cheia de brilho.

Ao São Paulo, que tentara agredir o jogo inteiro a equipe santista, o baque foi forte. O time não conseguiu mais ter força ao ir avante. Talvez ainda não seja o momento deste novo tricolor figurar na galeria dos campeões nos anos 2010s. A pena para eles é que a culpa foi toda de Neymar. E sua dependência no Santos é evidente, ainda que não protagonize nenhum defeito ao ter isso.

Afinal, depender de craques é mais do que natural. Por mais que sejam prodígios, se sabem lidar com a responsabilidade, conseguem fazer mágica. Provavelmente, se não fosse por Neymar, o São Paulo teria vencido. A equipe agrediu em grandíssima parte do entrave. Mas azar dela que Neymar estava à beira de seu hat trick. O primeiro em jogos clássicos.

Neymar - a foto não é tão boa (particularmente), mas vale a dança pelo 102º

Por: Felipe Saturnino

Tags:
21/04/2012

A maior vitória do Real de Mourinho

O Real Madrid, e nenhum outro time do planeta, pode se sustentar diante o Barcelona de forma agressiva. Isto é, não pode se atacá-lo. Ou até melhor: não consegue-se atacá-lo.

A ação reativa (contragolpe) é a única arma exuberante do repertório madridista que pode mesmo ‘ferir’ o Barcelona. Mesmo que a qualidade total da equipe da capital deixe esse fato para trás. Pois deixa. E muito. Mas a qualificação para retrair as linhas e sair de forma vertical, em velocidade, é a única coisa que se tem para ‘assustar’ os catalães. O problema é que dificilmente funciona, pois necessita-se de absoluta atenção em todos os instantes do jogo.

Em mais um bom clássico, Madrid e Barça protagonizaram um fato novo nesta história que percorre a temporada europeia, ansiando por um encontro entre ambos na final da Liga dos Campeões, em Munique: a neutralização.

Experimentaram o fato por uma atuação mais do que segura dos volantes Xabi Alonso e Sami Khedira. O time de Mou retraiu as linhas e reduziu o espaço, como é de praxe diante o Barça. Mas hoje tinha um algo a mais que diferenciava esta ocasião das outras, tornando-a exceção. O Madrid se defendeu de forma exímia, e não errou.

Meia verdade: errou, no gol barcelonista, mas é a única menção.

A equipe de Pep Guardiola seguiu sua contínua modificação: 4-3-3, 3-4-3, e até teve linha de quatro no meio-de-campo. Daniel Alves prosseguia na ‘altura’ do campo segundo essas mudanças: fosse 4-3-3, ele viria a ser um ponta-direita. 3-4-3, parte média do campo.

Mas a diferença foi que o Real conseguiu jogar, conter a equipe do Barcelona e contra-atacar. Foi bem-sucedido também no jogo aéreo. O gol de Khedira, aliás, surgiu após cabeçada de Pepe, com uma falha de Valdés – obviamente não tão escandalosa como aquela do jogo do primeiro turno, mas ainda assim uma falha -, o que fez com que o volante alemão constasse no primeiro gol do placar em Camp Nou.

E mesmo com Coentrão, o Real Madrid se virou. O português foi designado para a lateral-esquerda apesar de seus pesares do revés do Bayern na Allianz Arena, na passada terça-feira. Na linha média-ofensiva, o Madrid oferecia Mesut, Angel e Cristiano ao ataque. E um Benzema, em grande forma, partindo para o jogo.
É óbvio que esperávamos que o misto desses grandes talentos, uma hora, poderia vir a nos dar algo de mais significativo contra um dos maiores esquadrões da história do esporte. Mourinho só havia obtido uma vitória dentre os diversos jogos entre os gigantes: aquela na Copa do Rei, no Mestalla.

Todavia, apesar daquele acerto tático do 4-1-4-1 ter representado um triunfo que, por fim, representou o primeiro e único caneco de José no comando do Madrid, hoje a vitória pareceu mais significativa.

As circunstâncias influenciam na avaliação geral. Se aquele jogo foi em campo neutro, isolado, aqui a situação era pró-Barcelona. No inferno que deve ser para o Real Madrid, venceu o time da capital. O 4-2-3-1, apesar da descrença relativa às experiências com o Barça, foi mantido. Coentrão, idem.

O que mudou, até mais do que o princípio tático de redução de espaços, foi a atitude madridista. Foi um jogo muito bem conduzido, sem ‘pressure’ – apesar de ter sido com muita. Mas a pilha natural foi levada, de acordo com o contexto, e compôs a maior vitória do Real Madrid em algum tempo sobre os melhores do mundo – e melhores da história.

Além da neutralização tática, a psicológica auxiliou o Real Madrid a faturar – perdão, a praticamente faturar – o 32º caneco da sua história. Messi não brilhou – fez sua atuação mais tímida em um clássico em algum tempo. Dessa vez, o segundo melhor do mundo o fez. E neutralizou o maior rival dois minutos após o empate, com um belo gol após a ótima bola de Özil. O tento que veríamos que, ao final, constataria a primeira vitória do Real de Mourinho no Camp Nou. Provavelmente a maior, por todo seu contexto.

Cristiano - mostrando que há vezes em que o segundo melhor pode ser melhor que o primeiro

Por: Felipe Saturnino

06/04/2012

O problema do Santos: Neymar e o volume

A questão vai afunilar nos próximos momentos de Libertadores, mas a opinião é válida desde agora: o Santos é o melhor time da competição. Mas não é o melhor NA competição!

O panorama: Inter mais móvel, mas Santos agressivo - principalmente na segunda etapa - com Neymar e o volume de jogo crescendo

A mudança na preposição, apesar de ser muito breve e quase não dizer nada – ou não mostrar nada ao leitor – diz muito – e mostra muito. Pois, dentre todos os brasileiros no maior torneio das Américas, o Fluminense é o ‘melhor’. Mas não o é legitimamente. É parcialmente, momentaneamente; circunstancialmente.

E são motivos bem simples que compõem e retocam a situação.

Neymar, o ponta-esquerda do 4-2-3-1 santista, é a máquina de absurdo talento e sobrenatural precisão que rege o resto do time. Seu trabalho é o mais fundamental, por ser o mais fundamental; é claro que se posta muito no questionamento de seu tamanho repertório e de sua capacidade acima da média, mas o garoto tem de arcar com as consequências defensivas – ele também compõe o corredor com o seu companheiro no flanco canhoto.

Além de tudo, decide num lance com a ligeira fintada e pode também levar um beque para a barca do inferno – Moledo que o diga. A pegada no santista no minuto 43 do segundo tempo de jogo foi feia. Até possivelmente para expulsão direta com vermelho. Não foi o caso.

A temática central, todavia, é a dificuldade em dar conta do 11 e do resto do time: por isso o considerar o mais qualificado de todos os nacionais na Liberta. O volume do jogo do Santos é intenso também, apesar de um Inter ‘envolvente’ com frequentes modificações na linha média-ofensiva de três atuantes – Dátolo, Dagoberto e Tinga jogaram por ali. E, também, apesar do gol rapidíssimo de Nei. Rafael nada fez: apenas admirou a magistral cobrança – que não condiz com a qualidade do lateral por completo, certamente.

Ainda assim, o Santos, por ter mais qualidade, envolveu e absorveu o Inter em questão de tempo. A compactação de Damião foi importante no período de vantagem: ele retornava para sustentar uma posição mais profunda no campo, formando uma linha ofensiva de quatro homens. É essa compactação tão fundamental que consiste a marcação.

E o jogo foi muito pouco atraente da vista tática: dos 4-2-3-1s, o mesmo dialeto, ambos conhecendo-se e utilizando o mesmo panorama sistemático. A diferença era que Ibson recuava um pouco no flanco direito, compondo um setor mais fundo no campo e gerando a ‘variação’ do 4-2-3-1 ‘torto’. O colorado era mais ‘reto’.

O Santos empatou aos 26, com Kardec – sem piada espírita. Gol de cabeça, após Juan cruzar. O uso do flanco direito da defesa do Inter foi o trunfo. Basicamente por Neymar.

Não tivesse sido Muriel, o Santos teria vencido. Na certa.

O ponto é que, mesmo diante de desvantagem, os paulistas souberam lidar com a situação, e foram guiados progressivamente pelas atitudes do melhor brasileiro que há em atividade – que partiu para as bolas, como é do feitio.

Com a presença de qualidade no meio-de-campo (a conexão Ganso-Neymar-Arouca) e presença forte nos flancos (principalmente o esquerdo) a equipe santista tende ao favoritismo nos confrontos seguintes para a Libertadores. Apenas cessará a participação se for possível neutralizar Neymar, primeiramente; a equipe cairia muito sem o craque mor, mas ainda assim seria razoavelmente perigosa.

Mas com ambas as razões para apontá-lo como melhor brasileiro DA competição atuando em conjunto, será difícil deter a equipe de Muricy. Neymar e o volume de jogo crescem, em dependência, mas auxiliam-se mutuamente.

E quem dera aquela espetacular bola do garoto entrasse: o mais espetacular ainda, Muriel, pegou.

Neymar - partindo para as bolas

Por: Felipe Saturnino